23/02/2007

A volta de Imray


Imray levara a cabo o impossível. Sem avisar, sem qualquer motivo concebível, em plena mocidade, no limiar da sua carreira, preferira desaparecer do mundo – quer dizer, da pequena estação indiana vivia.

Na véspera estava vivo, com saúde, feliz, e em grande evidência entre as mesas de bilhar do seu clube. Na manha seguinte desaparecera, e nenhuma busca pôde revelar onde se encontrava. Sumira dos lugares habituais; não aparecera no escritório à hora do costume e seu "dogcart" não fora visto nas vias públicas. Por estas razoes, e porque estava embaraçando, ,em proporção microscópica, a administração do Império Indiano, esse Império parou por um momento microscópico para fazer investigações sobre o destino de Imray. Dragaram-se lagoas, sondaram-se poços, enviaram-se telegramas em toda a extensão das linhas de trem e ao porto de mar mais próximo – mil e duzentas milhas afastado dali; mas Imray não apareceu no fundo das caçambas de dragagem nem na extremidade das linhas telegráficas. Fora-se, e ninguém mais o viu no lugar. Então o serviço do grande Império Indiano seguiu adiante, porque não podia ficar atrasado, e Imray de um homem passou a ser um mistério – uma dessas coisas sobre as quais os homens falam durante um mês nas mesas dos clubes, e depois esquecem totalmente. Suas espingardas, cavalos e carruagens foram vendidos a quem deu mais. O oficial superior escreveu uma carta completamente absurda à mãe dele, dizendo que Imray desaparecera de maneira absoluta, e o bangalô onde ele morava permaneceu vazio.

Depois de se terem passado três ou quatro meses de calor escaldante, o meu amigo Strickland, da polícia, entrou em acordo com o proprietário indígena para alugar o bangalô. Isso foi antes de ele ficar noivo de Miss Youghal – história que já foi contata em outro local – enquanto se dedicava às suas investigações sobre a vida nativa. Sua própria vida era bastante estranha, e os homens se queixavam das suas maneiras e costumes. Havia sempre comida em cada dele, mas não havia horas certas para as refeições. Comia em pé e andando de um lado para outro, qualquer coisa que encontrasse no bufete, e isso não é nada bom para seres humanos. Seu equipamento doméstico limitava-se a seis rifles, três espingardas de caça, cinco selins e uma coleção de caniços de pesca, maiores e mais fortes do que as maiores canas de pescar salmão. Tudo isso ocupava a metade do bangalô, e a outra metade era reservada a Strickland e ao cachorro Tietjens – uma enorme cadela da raça Rampur que devorava diariamente a ração de dois homens. Fazia-se entender por Strickland com uma linguagem própria; e sempre que, quando andava perambulando lá por fora, via coisas que poderiam destruir a paz de Sua Majestade a Rainha Imperatriz, voltava para junto do dono e levava-lhe a informação. Strickland tomava imediatamente providências, e o fim de seus trabalhos queria dizer transtorno, multa e prisão para as outras pessoas. Os nativos acreditavam de Tietjens era um espírito familiar e tratavam-na com a grande deferência nascida do ódio e do medo. Um quarto do bangalô era reservado para seu uso exclusivo. Tinha um estrado para dormir, um cobertor e uma celha de água e se alguém entrava no quarto de Strickland à noite, o costume dela era jogar o intruso no chão e segurá-lo, latindo, até que alguém viesse com uma luz. Strickland devia-lhe a vida; estava na fronteira em busca de um assassino local, que veio na madrugada cinzenta para mandar Strickland muito para além das ilhas Andaman. Tietjens agarrara o homem quando ele se ia arrastando para dentro da tenda de Strickland com um punhal entre os dentes; e depois de se provar o seu propósito assassino aos olhos da lei, fora enforcado. Desde aquela data Tietjens usara uma coleira de prata maciça, e tivera um monograma bordado no seu cobertor; e o cobertor era de lã de Kashmir, porque Tietjens era uma cadela mimada.

Por coisa alguma seria capaz de separar-se de Strickland; e de uma vez, quando ele estivera doente com febre, dera muito que fazer aos médicos, porque não sabia como tratar o dono e não queria permitir que nenhuma outra pessoa tentasse fazê-lo. Macarnaght, do serviço médico indiano, teve de bater-lhe na cabeça com a coronha do revolver ates que ela compreendesse que devia dar lugar aos que pretendiam ministrar-lhe quinino.

Pouco tempo depois de Strickland ter alugado o bangalô de Imray, meu serviço levou-me até àquele porto e naturalmente, encontrando os alojamentos do Clube cheios, fui hospedar-me em casa de Strickland. Era um local confortável, com oito cômodos e cuidadosamente coberto de colmo alcatroado para evitar qualquer possibilidade de goteiras. Abaixo do alcatrão do telhado corria um forro de pano que parecia exatamente um teto de estuque bem caiado. O proprietário pintara-o de novo quando Strickland alugara. A não ser quem soubesse como são construídos os bangalôs indianos, nunca ninguém suspeitaria que acima do tecido do forro estava o escuro vão de três abas do telhado, onde as vigas e a parte inferior do colmo alcatroado abrigavam toda a espécie de ratos, baratas, formigas e coisas imundas.

Tietjens recebeu-me na varanda com um latido semelhante às badaladas do sino da catedral de São Paulo, pondo as patas nos meus ombros para mostrar que estava contente por me ver. Strickland procurara improvisar uma espécie de refeição que chamou de almoço, e imediatamente depois de engoli-la saíra a tratar dos seus negócios. Fiquei sozinho com Tietjens e os meus próprios negócios. O calor sufocante do verão cedera e transformara-se no calor úmido das chuvas. Não havia uma viração no ar aquecido, mas a chuva caía em cordas sobre a terra e erguia uma névoa azulada ao respingar. Os bambus, abacateiros, sapotizeiros e mangueiras, no jardim, estavam imóveis, enquanto a chuva quente escorria sobre os seus troncos, e as rãs começavam a coaxar entre as sebes de aloés. Um pouco antes do escurecer, quando a chuva era mais forte, sentei-me na varanda de trás, escutando a chuva escachoeirar das biqueiras do telhado e coçando-me porque estava cheio dessa coisa chamada brotoeja. Tietjens veio para junto de mim e pousou a cabeça no meu regaço, parecendo muito triste; por isso lhe dei biscoitos quando o chá ficou pronto, e tomei eu próprio chá na varanda de trás por causa do ligeiro frescor que sentia ali. Os cômodos da casa estavam escuros, às minhas costas. Podia sentir o cheiro da coleção de arreiros de Strickland e do óleo de suas espingardas e não tinha vontade de ir sentar-me no meio daquelas coisas. Meu criado veio ter comigo na luz crepuscular, com a roupa de linho colada ao corpo ensopado, e disse que chegara um cavalheiro que desejava falar com alguém. Muito contra a minha vontade, mas somente por causa da escuridão dos quartos, fui para a sala de visitas vazia, dizendo ao meu homem para trazer um luz. Podia ou não ter havido um visitante esperando – pareceu-me que tinha visto um vulto perto da janela – mas quando chegou a luz não havia nada a não ser as cordas da chuva lá fora, o cheiro da terra molhada nas minhas narinas. Fiz ver ao meu criado que ele não tinha nada de esperto, e voltei à varanda para conversar com Tietjens. Ela saíra para a chuva e só a muito custo consegui fazê-la voltar para junto de mim, mesmo oferecendo-lhe biscoitos e torrões de açúcar. Strickland voltou para casa, ensopado até os ossos, quase à hora do jantar, e a primeira coisa que disse foi:

- Esteve aqui alguém?
Expliquei-lhe, desculpando-me, que o meu criado me fizera ir até à sala de visitas com um rebate falto; e que algum desocupado procurara visitar Strickland mas depois, mudando de idéia, se retirara sem deixar nome. Strickland mandou servir o jantar, sem fazer comentários e visto que era um jantar de verdade, inclusive com uma tolha branca posta, sentamo-nos à mesa.

Às nove horas, Strickland quis deitar-se, e eu também estava cansado. Tietjens, que estivera deitada sob a mesa, levantou-se e dirigiu-se para a varanda mais abrigada assim que o dono se encaminhou para o seu próprio quarto, que era junto do confortável aposento preparado para Tietjens. Se uma esposa tivesse querido dormir lá fora com aquela chuva pesada, isso não teria importância; mas Tietjens era uma cachorra e, portanto, um animal melhor. Olhei para Strickland esperando vê-lo chamá-la com um assovio. Ele sorriu de maneira estranha, como um homem sorriria depois de revelar uma tragédia doméstica. "Ela faz isso desde que mudei para aqui, disse. Deixe-a lá.

A cachorra era de Strickland, por isso nada observei, mas sentia todo o que Strickland sentia por ser assim desprezado. Tietjens acampou do lado de fora da janela do meu quarto e eu ouvia um trovão depois do outro, rolar sobre o colmo do telhado, e morrer ao longe. Os relâmpagos espalhavam-se pelo céu como um ovo jogado se espalha numa porta de celeiro, mas a luz era azul-clara e não amarela; e olhando através das minhas cortinas de bambu entreabertas, eu podia ver a grande cadela de pé, não dormindo, na varanda, com o pelo das costas eriçado e as patas rígidas, tão esticadas como os cabos de aço de suspensão de uma ponte pênsil. Nos intervalos muito curtos da trovoada eu tentava dormir, mas parecia que alguém precisava de mim urgentemente. Fosse quem fosse, tentava chamar-me pelo nome, mas a sua voz não era mais que rouco sussurro. A trovoada acabou, e Tietjens foi para o jardim e uivou para a lua nascente. Alguém tentou abrir a minha porta, andou de um lado para o outro pela casa, e parou respirando alto nas varandas, e exatamente quando eu ia adormecendo pareceu-me ouvir um forte martelar e brados por cima da minha cabeça ou à porta.

Corri ao quarto de Strickland e perguntei-lhe se ele estava doente e se me chamara. Ele estava deitado na cama, meio vestido, com o cachimbo entre os dentes. "Imaginei que havia de vir", disse. "Esteve caminhando pela casa, há pouco?"

Expliquei-lhe que ele andara vagando pela sala de jantar, pela sala de fumo e por mais dois ou três cômodos; e ele riu e disse-me que voltasse para a cama. Voltei para a cama e dormi até pela manhã, mas através de todos os meus sonhos inquietos tinha a consciência de que estava fazendo uma injustiça a alguém não atendendo seus desejos. O que eram esses desejos, não poderia dizê-lo; mas alguém, ondeante e sussurrante, tateante, oculto e vago, estava-me censurando pela minha moleza e, meio acovardado, eu ouvia o uivo de Tietjens no jardim e o crepitar da chuva.

Morei naquela casa dois dias. Strickland ia para o seu escritório diariamente, deixando-me sozinho durante oito ou dez horas, com Tietjens por única companhia. Enquanto a luz do dia durava eu sentia-me tranqüilo e Tietjens também; mas ao crepúsculo eu e ela íamos para o terraço dos fundos, e procurávamos a companhia um do outro. Estávamos sozinhos na casa, mas não obstante esta parecia completamente entregue a um habitante com quem eu não desejava ter interferência. Nunca o viu, mas podia ver as cortinas das portas entres os diversos cômodos agitarem-se à passagem dele; podia ouvir as cadeiras estalarem e os bambus distenderem-se como se um peso acabasse de sair de cima deles; e podia sentir, quando ia buscar um livro à sala de jantar, que alguém estava esperando nas sombras da varanda da frente que me retirasse. Tietjens tornava o crepúsculo mais impressionante olhando para dentro dos quartos escurecidos com todos os pêlos eriçados, e seguindo com o olhar os movimentos de uma coisa que eu não podia ver. Nunca entrava nos quartos, mas seus olhos moviam-se atentamente; isso era suficiente. Só quando o meu criado vinha espevitar as lâmpadas e tornar tudo claro e habitável é que ela vinha para junto de mim, e sentava-se sobre os quartos, observando um homem invisível que se movia por trás dos meus ombros. Os cachorros são companheiros alegres.

Expliquei a Strickland com a maior delicadeza possível, que ia arranjar alojamento para mim no Clube. Apreciava muito a hospitalidade dele, gostava das suas espingardas e caniços, mas não me sentia bem com a atmosfera da casa. Ele ouviu-me calado até ao fim, e depois sorriu muito cansadamente, mas sem mofa, porque é um homem que sabe compreender as coisas. "Fique", disse, "e descubra o que quer dizer essa coisa. Tudo o que me disse eu já sabia desde que aluguei o bangalô. Fique e espere. Tietjens já me abandonou; quererá fazer o mesmo?"

Eu já o ajudara em um pequeno caso, relacionado com um ídolo pagão, que me levara às portas de um asilo de loucos, e não tinha o menor desejo de ajudá-lo ainda em novas aventuras. Ele era um homem que procurava situações desagradáveis com a mesma facilidade com que um homem normal vai a jantares.

Portanto, expliquei-lhe o mais claramente possível que gostava muito dele, e teria muito prazer em vê-lo durante o dia; mas que não desejava dormir sob o seu teto. Isso era depois do jantar, quando Tietjens saíra para ir se deitar na varanda.

- Por Deus, não me admiro – disse Strickland, com os olhos fixos no pano do forro – Olhe para aquilo!
As caudas de duas víboras castanhas pendiam entre o forro e a cornija da parede. Lançavam grandes sombras à luz das lâmpadas.

- se tem medo de víboras, é natural – disse Strickland.
Eu tenho ódio e medo às serpentes, porque se a gente fitar os olhos de uma serpente verá que ela sabe tudo e mais alguma coisa sobre o mistério da queda do homem, e que sente toda a satisfação que o Diabo sentiu quando Adão foi expulso do Paraíso. Além do que a sua dentada é em geral fatal, e elas costumam enrolar-se nas pernas da calças.

Deveria mandar fazer uma limpeza no seu colmo – disse eu. – Dê-me um desses caniços de pesca para faze-las cair.

- Esconder-se-ão entre as vigas do telhado – disse Strickland – e eu não posso suportar a idéia de ficar com essas víboras lá em cima. Vou subir ao forro. Se eu as jogar cá para baixo, fique de lado e quebre-lhes a espinha com a vareta de limpar as espingardas.
Eu não tinha a menor vontade de ajudar Strickland naquele serviço, mas peguei a vareta e esperei na sala de jantar, enquanto Strickland trazia uma escada de jardineiro da varanda e encostava-a à parede do aposento. As caudas das víboras agitaram-se e desapareceram. Podíamos ouvir o ruído seco dos seus corpos compridos fugindo por cima do pano frouxo do teto. Strickland pegou em uma lâmpada, enquanto eu tentava fazê-lo ver claramente o perigo de dar caça a víboras de telhado entre um pano de forro e a cobertura do colmo, fora a possibilidade de danificar a propriedade alheia rasgando o pano do forro.

- Tolice! – disse Strickland -. É certo que estarão escondidas junto das paredes por baixo do pano. Os tijolos são frios demais para elas e o que justamente lhes agrada é o calor da sala. Pôs a mão no canto do forro e desprendeu-o da cornija. Cedeu com um grande baralho de pano rasgado e Strickland meteu a cabeça pela abertura, espreitando para dentro do vão escuro das vigas do telhado. Apertei os dentes e levantei a vareta, porque não tinha a menor idéia do que poderia vir lá de cima.
- Hum! – disse Strickland, e a voz rolou e ecoou no telhado -. Há espaço para outra espécie de cômodos aqui em cima e, por Deus, alguém os ocupa!

- Víboras? – perguntei eu cá de baixo.

- Não. É um búfalo. Passe-me cá para cima os dois pedaços mais grossos de um desses caniços de pesca, que eu vou empurrá-lo. Está em cima da viga mestra do telhado.

Dei-lhe a vareta.

- Que ninho de mochos e serpentes! Não admira que as víboras vivam aqui – disse Strickland, subindo mais para dentro do forro. Podia ver-lhe o ombro manejando a vareta. – Sai daí, seja lá quem fores! Cuidado lá embaixo! Vai cair!
Vi o forro de pano, mais ou menos a meio da sala, esticar-se com o peso de um objeto volumoso que o ia forçando para baixo, em direção à lâmpada que estava acesa sobre a mesa. Puxei rapidamente a lâmpada para lugar mais seguro e recuei um pouco. Então o pano desprendeu-se das paredes, rasgou-se, abriu-se ao meio e deixou cair sobre a mesa qualquer coisa para a qual não ousei olhar até que Strickland desceu a escada e veio para junto de mim.

Não disse grande coisa, porque era um homem de poucas palavras; mas pegou na ponta solta da toalha da mesa e dobrou-a por cima dos despojos que tinham caído.

- Parece-me, - disse pousando a lâmpada – que o nosso amigo Imray voltou à sua casa. Oh, tu também vieste, não foi?
A toalha agitou-se de leve e uma pequena víbora escorregou para o chão, onde foi cortada ao meio por uma pancada do caniço. Eu me sentia doente demais para fazer observações que mereçam menção.

Strickland estava meditando e serviu-se de uma bebida. O estava debaixo da toalha não deu mais sinal de vida.

- É Imray? – perguntei.
Strickland levantou a ponta da toalha por um momento, e olhou.

- É Imray – disse -; e tem a garganta cortada de orelha a orelha.
Então dissemos, ao mesmo tempo, para nós mesmos: "Era por isso que ele andava vagueando pela casa!"

Tietjens, no jardim, começou a latir furiosamente. Um momento depois abriu com o focinho a porta da sala de jantar.

Farejou e ficou imóvel. O pano rasgado do forro estava pendurado quase até a altura da mesa, e havia pouco espaços para nos afastarmos dos despojos.

Tietjens avançou e sentou-se; os dentes surgiram-lhe arreganhados e as patas da frente ficaram rígidas. Olhou para o dono.

- É um caso complicado, minha velha – disse ele -. Um homem não sobe ao forro do seu próprio bangalô para morrer, e não conserta o forro depois. Vamos pensar no caso.
- Vamos pensar, mas em qualquer lugar fora daqui – disse eu.-

- Excelente idéia. Apague as lâmpadas. Vamos para o meu quarto.

Não apaguei as lâmpadas. Fui para o quarto de Strickland na frente e deixei que ele se encarregasse daquele serviço. Depois ele me seguiu, acendemos os cachimbos e pensamos. Strickland pensou. Eu fumava desesperadamente, porque estava com medo.

- Imray está de volta – disse Strickland -. A questão agora é: quem o matou? Não fale! Tenho uma idéia. Quando aluguei esta casa fiquei com muitos dos criados dele. Imray era franco e inofensivo, não era?
Concordei, embora o despojo que estava debaixo da toalha não parecesse uma coisa nem outra.

- Se eu chamar todos os criados, eles unir-se-ão em um bloco e mentirão como arianos. Que sugere você?
- Chame-os um por um – disse eu.

- O primeiro irá correndo contar a novidade a todos os companheiros – disse Strickland. Devemos separá-los. Acha que seu criado saiba alguma coisa sobre o caso?

- Pode ser, pelo que sei. Mas não é provável. Só está aqui há dois ou três dias – respondi -. Qual a sua idéia?

- Não sei bem dizer. Como diabo foi o homem escolher o lado de cima do forro?

Ouviu-se uma tosse forte do lado de fora do quarto de Strickland. Isso queria dizer que Bahadur Khan, seu camareiro, acordara e queria ajudar Strickland a deitar-se.

- Então. Está uma noite muito quente, não está?
Bahadur Khan, um grande maometano com seis pés de altura, usando turbante verde, disse que estava uma noite muito quente; mas estava para cair muita chuva, a qual, por graça de Sua Honra, traria alívio à terra.

- Assim será, se Deus quiser – disse Strickland, descalçando as botas. – Tenho idéia, Bahadur, de que está trabalhando para mim, sem merecer censura, há muito tempo – desde que entraste para o meu serviço. Quando foi isso?
- O filho dos Céus já esqueceu? Foi quando Imray Sahib seguiu secretamente para a Europa sem avisar ninguém; e eu – até eu – entrei para o honrado serviço do protetor dos pobres.

- E Imray Sahib foi para a Europa?

- Assim se diz entre os que eram seus criados.

- E tu aceitarás serviço dele, quando voltar?

- Seguramente, Sahib. Ele era um bom amo, e tratava bem seus dependentes.

- Isso é verdade. Estou muito cansado, mas vou caçar cabritos montanheses amanhã. Dá-me o pequeno rifle que costumo usar para tal; está naquela caixa ali.

O homem curvou-se sobre a caixa. Entregou os canos, a culatra e a coronha a Strickland, que montou a arma, bocejando preguiçosamente. Depois estendeu a mão para a caixa de armas, pegou em um cartucho grosso e meteu-o na culatra da carabina.

- E Imray Sahib foi para a Europa secretamente! Isso é muito estranho, Bahadur Khan; não achas?
- Que sei eu dos costumes dos homens brancos, filho dos Céus?

- Bem pouco, na verdade. Mas ficarás sabendo mais dentro em pouco. Eu soube que Imray Sahib voltou de suas longas jornadas e neste momento jaz ali na outra sala, esperando pelo seu servo fiel.

- Sahib!

A luz da lâmpada brilhou nos longos canos da carabina quando se ergueram à altura do peito largo de Bahadur Khan.

- Vai ver! – disse Strickland -. Leva uma lâmpada. Teu patrão está cansado e precisa de ti. Vai!
O homem segurou uma lâmpada e entrou na sala de jantar, seguido por Strickland que quase o empurrava com a boca do rifle. Olhou por um momento o vão escuro do forro acima do pano rasgado; para a víbora contorcida no chão; e, por último, para os despojos sob a tolha da mesa.

- Viste? – perguntou Strickland depois de uma pausa.
- Vi. Sou barro nas mãos do homem branco. Que farão os outros?

- Enforcar-te dentro de um mês. Que mais poderiam fazer?

- Por matá-lo? Agora, Sahib, considera. Vivendo entre nós, seus criados, ele pousou os olhos no meu filho, que tinha quatro anos. Enfeitiçou-o e dentro de dez dias morreu de febre – o meu filho!

- Que disse Imray Sahib?

- Disse que era um menino bonito, e deu-lhe uma palmadinha na cabeça; e por isso meu filho morreu. E por isso eu o matei, ao crepúsculo, quando ele tinha voltado do escritório e estava dormindo. Depois o arrastei para a viga do telhado e recompus tudo atrás dele. O filho dos Céus tudo sabe. Sou um escravo do filho dos Céus.

Strickland olhou para mim por cima dos canos da arma e falou no mesmo tom empolado:

- Tu és testemunha do que ele disse? Ele matou.
Bahadur Khan parecia cor de cinza à luz da única lâmpada. A necessidade de defender-se apresentou-se-lhe logo.

- Fui apanhado, - disse – mas o ofensor foi aquele homem. Lançou mau olhado sobre meu filho, e eu matei-o e escondi-o. Só os que são servidos pelos demônios – olhou para Tietjens deitada calmamente diante dele – só eles poderiam saber o que eu fiz.
- Foste esperto. Mas deverias tê-lo amarrado à viga com uma corda. Porém agora tu é que ficarás pendurado de uma corda. Ordenança!

Um policial sonolento acudiu ao chamado de Strickland. Vinha seguido de outro e Tietjens sentou-se muito quieta.

- Levem-no para o posto policial. Há um caso contra ele.
- Vou ser enforcado, então? – perguntou Bahadur Khan, sem fazer qualquer tentativa para fugir, e conservando os olhos no chão.

- Se há luz do sol e água corrente, sim! – disse Strickland.

Bahadur Khan recuou um grande passo, estremeceu e ficou imóvel. Os dois policiais aguardavam novas ordens.

- Vão! – disse Strickland.
- Nunca! Mas eu vou muito depressa – disse Bahadur Khan -. Mesmo agora já sou um homem morto.

Levantou o pé, e ao dedo mindinho estava aferrada a cabeça da víbora meio morta, firmemente agarrada na agonia da morte.

- Venho de uma raça de senhores da terra – disse Bahadur, oscilando -. Seria uma desonra para mim subir ao patíbulo; portanto, escolho este caminho. Lembrem-se de que as camisas do Sahib estão em perfeita ordem e que há um sabonete novo na sua saboneteira. Meu filho foi enfeitiçado e eu matei o bruxo. Por que havia de ser enforcado? Minha honra está salva, e – eu – morro!
Ao cabo de uma hora morreu, como morrem aqueles que são mordidos pela pequena "karait" castanha e os policiais levaram-no, assim como aos despojos que jaziam sob a toalha da mesa, para seus competentes destinos. Seriam necessários para esclarecer o desaparecimento de Imray.

- E isso – disse Strickland muito calmo, ao enfiar-se na cama – chama-se século dezenove. Ouviu o que aquele homem disse?
- Ouvi – retruquei -. Imray cometeu um erro.

- Única e simplesmente por não conhecer a natureza do oriental, e a coincidência de uma pequena febre palustre. Bahadur Khan estava com ele havia quatro anos.

Estremeci. Meu próprio camareiro estava comigo exatamente há quatro anos. Quando fui para o quarto encontrei o meu homem impassível como a efígie de cobre de u’a moeda, pronto para descalçar-me as botas.

- Que aconteceu a Bahadur Khan? – perguntei eu.
- Foi mordido por uma víbora e morreu. O resto o Sahib já sabe – foi a resposta.

- E quanto sabias tu a respeito deste caso.

- Tanto quanto se pode inferir de alguém que vem no crepúsculo tomar satisfação. Devagar, Sahib. Deixe-me puxar essas botas.

Ia justamente adormecendo, exausto, quando ouvi Strickland gritar do outro lado da casa:

- Tietjens voltou para o seu lugar!
E tinha voltado mesmo. O grande mastim estava majestosamente deitado no seu estrado e no seu cobertor, enquanto no aposento contíguo, o forro de pano rasgado se balançava, roçando a mesa.