07/02/2007

Inimigas



Desde o arraial da Senhora da Fraga que a Cacilda e a Sofia se não podiam ver. Até ali, muito amigas, sempre agarradas uma à outra, como irmãs. Mas meteu-se a ciumeira entre elas, e aquela amizade foi um ar que lhe deu. Fiadas no paleio do Augusto, a prometer um tostão a uma e cinco vinténs à outra, pareciam cadelas ao mesmo osso. Não saberem que quem é homem diverte-se, e que em coisas assim o melhor é fazer das tripas coração e deixar correr! Qual o quê! Puseram-se a dar ouvidos aos vinte anos, e, não e nada, faziam lume mal se encaravam.
Na tal noite da zanga, andavam juntas no adro, felizes da vida, a comer pêras e a beber limonada, quando o rapaz se aproximou, se eram servidas de qualquer coisa. Que muito obrigadas, mas que não tinham fome nem sede.
- E uma prenda?
Que aceitavam, já que estava tão daimoso. Ora, o Augusto, na escolha dos ramos de rebuçados, teve tais artes, que só com a quadra que neles vinha encheu as duas da miragem dum amor sem misturas. Umas patetas! O certo é que, mal o rapaz tirou a Sofia para dançar, a Cacilda ficou como se lhe tivessem dito que o fim do mundo era naquele instante.
Os arraiais da Senhora da Fraga são um bota-fora a noite inteira, com duas músicas a estrondar, uma de cada lado da capela. Fogo, nem se fala. Até de Sanfins se pode ver o céu de Faiões, sem um minuto de intervalo, aberto de claridade. Coisa rica! Pipas e pipas de vinho debaixo da carvalhada, e do melhor, que parece que todos capricham nisso, tascas de fritos, mesas de cavacas e de refrescos, medas de regueifas, carros de melancias, um louvar a Deus. Fartura de tudo para quem tiver conques. De maneira que quem diz: vou ao arraial da Senhora da Fraga e vai, já se sabe que não arranca de lá antes do alvorecer. Por isso, até a Santa estremeceu no altar quando a Cacilda, a todo o pano, que se ia embora. Perguntava-lhe a ti Constança, abismada:
- Que mosca te mordeu, rapariga?! Tu estás maluca ou quê?!
Felizmente que o Augusto valeu àquilo, arredondando a fala e convidando-a também.
Toda babada por dentro, que não, que não dançava. Rogasse outra vez a Sofia. O rapaz insistiu, e o que foste fazer! Agarrou-se a ele e atirou-se à cana verde que parecia um pé de vento! De madrugada, comiam-se uma à outra.
E valia a pena! As palermas a adorá-lo, a quebrar lanças pelo grande adereço, e o ladrão de caçoada! Ainda o cheiro dos foguetes andava pela serra a cabo, já os banhos dele a correr em Favaios com uma de lá!
Cuidaram todos que, morto o bicho, morta a peçonha. Oh, oh! Nem assim deram o braço a torcer! Engoliram a desfeita e ficaram como dantes, se não pior. E mutuamente a atribuírem-se as culpas de o Augusto bater as asas!
O grande prejuízo! Que valia ele mais do que os outros ? Nada. E a prova disso é que não tardou muito estavam casadas, com dois rapazes bem jeitosos, de resto, o Alberto e o Raimundo. Que queriam mais? Mas meteu-se-lhes aquela sizama no corpo, que mesmo depois de o verem arrumado e de se arrumarem também, continuavam a ferro e fogo.
Na boda de ambas ainda houve quem tentasse fazer as pazes. Bondou de bem! Danadas!
Como a Sofia se recebeu primeiro, disse-lhe a Rosa:
- Eu se fosse a ti, convidava a Cacilda... Fostes tão amigas na mocidade!...
Que a não queria ver nem pintada numa parede. E logo naquele dia, de mais a mais!
Uma falsa, que se lhe atravessara no caminho como urna ladra! Não. Havia ofensas que nem à hora da morte...
E a Cacilda, quando lhe chegou também a vez, por sinal na mesma semana - o povo dizia até que elas andavam ao desafio -, mal a Pirraças lhe falou na Sofia, credo, mudou de cor e perguntou muito a sério se lhe queriam estragar a festa. A escândula que tinha da outra ia com ela para a sepultura.
Com tal gente, bom dia 1 É não fazer caso e deixar correr. Dar tempo ao tempo, que cura meadas e embranquece os cabelos.
Tal e qual. Não tardou muito, nove meses contados, mais coisa menos coisa, tudo se compôs a contento de Faiões.
Certas como relógios, o Abril a cair, e cada uma com o seu menuio. Mas a Sofia esteve tão mal, tão doente, custou-lhe tanto o dela, que ninguém a julgava. Febres, acidentes, albuminas, que foi preciso vir o médico, e mesmo assim esteve desenganada. Leite para o filho, viste-o. sequinha como as palhas! O infeliz chupava um pano molhado em água açucarada, que a Rosa lhe chegava à boca, engolia uma pinga de leite de cabra, cortado, e viva o velho! Mirradinho, de todo.
A Cacilda soube do caso ainda antes de se erguer. Nas terras pequenas, as boas e as más notícias entram pelas frinchas da parede. E já com outra humanidade na alma, mãe de todos os pimpolhos do mundo e solidária com todas as mães amigas ou inimigas, mandou chamar a Rosa e pôs-lhe as fontes do peito à disposição. Com uma condição apenas: que a Sofia não soubesse. À laia de passear o menino, lho levasse lá. E ela havia de ver como o pequeno arribava, que tinha leite naqueles seios que chegava para um regimento. Até lhe doíam!
Assim foi. A Sofia, a poder de remédios e mais remédios, ia tendo mão na vida. E enquanto ela dormia, desmaiava, ou estava para ali amodorrada, a Rosa era como o vento: agarrava no garoto e corria a casa da Cacilda a fartá-lo.
Até que a Sofia arribou. Levantou-se muito fraca, muito amarela, e quis dar de mamar ao filho. Já podia.
Mas, quando foi abrir a blusa e pôs à mostra as duas bexigas secas, nem o catraio as quis, nem a Rosa consentiu que lhas metesse na boca.
- Guarda lá isso, mulher, que até o podes envenenar! Eu lhe darei de comer. Olha que à fome não morre!
Humilhada, a Sofia começou a chorar. E ainda mais desespero sentiu, pouco depois, ao ver a criança espernear nos braços da Rosa, recusar a chupeta e começar num berreiro de atroar os céus. O seu rico filho estava doente. Nem comer queria!
A Rosa é que não atribuiu grande importância à birra, como lhe chamou. A criança precisava de sair um migalho, de apanhar sol... Ia passeá-la.
A Sofia ficou s6, cheia da sua mágoa. Nunca fora fortalhaça, como a Cacilda, mas sempre esperara poder criar um filho, se Deus lho desse. Afinal... E por via disso o menino tinha de beber à sobreposse leite de cabra, que se calhar lhe fazia mal. Valha a verdade que não estava magro... Contudo, sempre era criado como os enjeitados. Que alegria para a Cacilda!
Malucava nisto, quando a Rosa entrou com o rapaz, calado e sonolento.
- Vamos experimentar outra vez?
A Rosa respondeu que sim, que ia encher a mamadeira... E nunca mais voltou.
Como o menino não chorava e se lhe ferrou a dormir no colo, a babar-se, a Sofia desconfiou. Ali andava segredo.
No meio da tarde cansada, a doente foi-se deitar e pegou no sono. A criança lá estava no berço, rosada como um anjo.
Apesar de adormecida, a Sofia continuava na sua grande labuta. A maternidade incompleta doía-lhe na raiz do instinto. E via no sonho o pequeno mirrar-se de fome, vítima inocente de uma mãe que o não era. Ofegante, tentava libertar-se do pesadelo. Não conseguia. Cada vez mais sumido, esquelético, o infeliz acusava-a com os seus grandes olhos negros, que cintilavam da escuridão de umas órbitas fundas como poços.
Num grito de terror, acordou. E deu pela falta do filho.
- Tia Rosa, o menino? - perguntou, aflita. Respondeu-lhe o homem, da cozinha:
- Tenho-o aqui ao colo... Vê se dormes. Cresceu-lhe a desconfiança. E no dia seguinte, pé ante pé, ainda a cair de fraqueza, quando a Rosa foi dar um dos tais passeios ao garoto, seguiu-a. Da esquina da rua viu-a chegar à eira e entregar o miúdo à Cacilda., que estava sentada ao sol.
Aproximou-se. O pequeno parecia um bacorinho no peito da inimiga. E, quando as outras deram conta, estava ela de pé, maravilhada, a dizer:
- Olha lá se me engasgas o rapaz, é Cacilda!

Miguel Torga, Contos da Montanha