25/02/2007

Flor da Murta

Daqui vejo a serra da Neve. Será esta

A alta serra da Neve
De onde o penedo caiu?


Deve ser. Parece-me tão longe! Para cá tudo são cam­pos ruços, cheios de oliveiras. As sombras caem no chão ao viés. Ainda é cedinho. Tomei um gole de água fresca e saí de casa. Aqui estou... O Sol, afinal, nasce-nos do lado fronteiro à serra, ainda só hoje reparo. Dos campos lá de baixo, onde o Tejo corre, vem subindo o nevoeiro. Enche tudo, mas é tão claro...

Por mais que eu olhe, por mais que me afirme, daquela correnteza de outeirinhos para laja não distingo nada, mas aqui ainda faz sol. O nevoeiro, de longe, é como um mar sem ondas.

Mudei de poisio. E já é a segunda ou a terceira vez que o faço. Este agora não me parece de todo mau. Estou sentada na raiz torcida e retorcida de uma oliveira velha. A sombra que me dá nas mãos é rala, dança por mim toda, estou cheia de luzernas; tem graça!

Lá começa o vento.

Olho para cima e o meu gosto é de nunca baixar os olhos. Que linda, a cor do céu! Quanto mais alto, mais azul. E aquelas nuvens brancas, que até parecem riscadi-nhas à pena? E este som, que vem ter comigo? Como o do mar... vai e vem, mas não me parece sempre igual.

Ora, é o vento. Pois que havia de ser senão o vento? Lá estão os freixos e os choupos a abanar. É um som, um bonito som para se adormecer.

Olha, ali murta!

Murta, murta! Mal vai a quem te não furta!

Vou já apanhar um raminho dela.

Ó vento, poupa-a, não ma desfolhes ainda. E deixa--me descansada a mim.

Aqui está. Que rico tronquinho de murta! Todo ele são tigelinhas brancas, mas cheias, cheias de quê? Terão gotas de mel ao de cima?

Flor da murta, que linda és! Não há outra como tu, nem tão fina nem tão delicada. Vou ter-te na mão como a um palmito. Os teus botõezinhos são como pérolas, de tão pequenos e fechadinhos.

Meu raminho de murta, enquanto eu te tiver no ar vou pensando... vou pensando até tu murchares. E as coisas que eu pensar uma me há-de sair um dia certa. Cedo ou tarde!

Que gostaria eu de ser?

Não sei, ainda não sei.

As outras raparigas serão muito mais bonitas que eu? Mais simpáticas? Eu não gostava de ter os olhos azuis, nem mesmo verdes, apesar das cantigas, mas gostava muito de ter o cabelo encaracolado.

Porque não andarão hoje as borboletas? Talvez que fujam do vento. Olha, ali duas, e três, e quatro... Aos pares. Abrem e fecham como uns livrinhos. E este galo, onde cantará ele? Lá vão as raparigas para o rio, ouvem-se daqui. Se elas soubessem... se me vissem de murta na mão... fartavam-se de rir. Não percebem nada! Mas a mim apetecia-me ir com elas, gosto de lavar. A roupa nas pedras a bater e as mulheres a cantar... E os pássaros trri chi chi... Primeiro fogem, mas depois voltam. E agradável!

Mas lavadeira não hei-de vir a ser, pois não, flor da murta? Gostava de viajar e de saber muitas línguas. Daqui a pouco faço treze anos. E também gostava de me casar.

Toma lá mais esta, pás! diz a roupa às pedras. As rapa­rigas batem-na bem. E toma lá mais esta e toma lá mais esta... só me parece que a roupa se está a vingar.

Ai, muito gostava eu de correr o mundo!

O meu noivo há-de ser alto. Também o queria moreno; o moreno é bonito.

Olha, olha, quem aí vem: o senhor Anselmo. Pouca sorte! Quem o há-de calar?

Estou muito bem, senhor Anselmo. O vento não me faz mal nenhum, até gosto. Já estou costumada. Mais murta? Para quê, senhor Anselmo? Deixe-a lá estar onde está. Aí mesmo é que ela faz vista. Muito obrigada, siga o seu caminho, olhe que estar assim parado é que lhe pode fazer mal.

E o homenzinho que se não queria ir embora?

Murta, então? Já estás para murchar? Olha que eu ainda não pensei nada... Este vento, este vento que nunca me larga! É ele que dá também cabo da murta. E se aqui rebentasse um tufão? Um grande remoinho que me levasse pêlos ares fora? Onde iria eu parar? Às charnecas, ao mar, quem sabe lá! Eu gostava muito de viajar pelo mar, mas em bons navios; já tenho visto os retratos de alguns: muito grandes, como salões e até piscinas para as raparigas nadarem, e com jardins e lojas. Parece impossível! Assim valia a pena... andar de terra em terra a ver caras novas, trajes esquisitos e a ouvir línguas diferentes... Quem me dera! Passear nas cidades... Depois haviam de me vir as saudades e então voltava.

Murta! Queres murchar? E eu que ainda não pensei nada. Já deve ser tarde. É tarde, com certeza. O almoço na mesa, e eu aqui, tão longe de casa!

Adeus, adeus murta e oliveiras, adeus tudo... toca a correr.



Irene Lisboa, In Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma