09/01/2007

Solidão



Para ter a mulher farta e mimosa, o Duro batia a montanha de cabo a rabo. Madrugava e chegava a Vila Pouca ao romper do dia.
- Tem milhão?
- Tenho.
- A como quer por ele?
- A catorze.
- Olha a catorze! Vossemecês endoideceram...
- Não fomos nós, foi o Governo. Com que se hão-de pagar as décimas, se não com o cibo da novidade ?
- Mas é muito dinheiro!
- Nem menos um real.
- Não. Tem que me deixar isso mais barato. Pago-lhe a treze.
- Tenha juizo!
- Treze e meio, vá!
Agarrava-se ao vendedor como uma carraça. Que lhe havia de tirar qualquer coisinha, pois então! Assim as almas tivessem paz no céu como não ganhava um vintém se o levasse por aquele preço. Perdia, mas é. .. E ao cabo de duas horas, carregava os machos e metia-se a caminho com vinte ou trinta mil réis de ganho.
Chegava a casa pela noite adiante, quando os cães uivavam que se danavam nas eiras cobertas de palha centeia e de luar, ou o céu se desfazia em água e a escuridão era como breu. A patroa, já deitada.
Descarregava, desaparelhava e pensava os animais, ia à cozinha comer o caldo, e chegava-se ao calor da cama. Às vezes, o corpo, mesmo assim quebrado, pedia-lhe uma tolice. E encostava-se à mulher. Mas raras vezes ela o atendia. Enfastiada, cheia de sono, resmungava que se arredasse para lá, que vinha gelado. Contra a vontade da carne, dava-lhe razão. E de manhã, ainda o sol se espreguiçava nos quintos, ala morena, que a vida dum almocreve é vida de judeu errante.
Botava-se a Vilar Seco. 
- Tem centeio?
- Tenho.
- A como quer por ele?
- A dezasseis.
- Olha a dezasseis! Vossemecês não estão bons da cabeça...
E às tantas da madrugada aí atravessava ele o povo, Guiães, com os machos carregados de tal maneira que pareciam pavões armados.
Mas à custa de noitadas, de molhadelas, de nevões, de fome e sede pelas serras além, a descer da Terra Fria o pão da Ribeira, o Duro tinha a casa testa do bom e do melhor, e a dona dentro dela como um bicho da seda no casulo. A Isaura fora sempre o seu fraco. Desde muito novo que a trazia na ideia. O diabo era ser meia senhora e andarem todos atrás dela, mais a mim, mais a mim. Por isso, sempre cuidou que não levava nada de ali. E, quando lhe bateu à porta e viu que o atendia, jurou de a tratar sempre como uma princesa.
- Aquilo não é parelha para ti, rapaz! - dissera-lhe a Gorda, grande amiga da Isaura, na altura em que, com grandes rodeios, tentava apalpar o terreno.
Fez que não entendeu. Pois sim. A Gorda é que sabia o que lhe convinha! Não. Pelo menos atirava o barro à parede... E, muito embora em coisas de amor fosse sempre acanhado, no S. João fez a barba, aperaltou-se e, na roda, assim que a rapariga mudou de par e lhe calhou, fez das tripas coração. Se o queria. E não é que ela diz que sim?! Foi o dia mais feliz da sua vida. Daí a uns meses casavam, e o Duro, para ter aquela prenda tratada como merecia, suava as estopinhas.
Só descansava aos domingos. E mesmo assim ia à missa à Senhora da Amoreira ao romper de alva, para se encontrar com os da Arcã, da Garganta e de Paredes, terras de muito cereal. A brincar, a brincar, matava dois coelhos duma cajadada: ouvia o padre Serôdio e apalavrava meia dúzia de alqueires.
A Isaura, essa, mais fidalga, erguia-se tarde, e às onze é que atravessava o povo em direcção à igreja, de bom cordão ao peito, solene como uma santa no andor. E o Duro, enquanto tratava dos machos ou dava um ponto na albarda, regalava-se todo de a ver passar assim, muito azada, bonita, a meter inveja ao sol.
- Tenho gosto nela, para que hei-de negar? - confidenciava de vez em quando ao Luciano, almocreve também.
- És um babado!
- Ela merece-o...
- Tu lá sabes. Em todo o caso... As mulheres são muito várias! A gente cuida uma coisa...
O Duro protestava. Um homem não se casava para andar sempre com uma aguilhada na mão, pica que pica, desconfiado. Que diabo! Nem era justo medir tudo pela mesma rasa. Claro, não se respeitando um ao outro... Agora se os feitios calhavam, não havia nada mais bonito. Um desgraçado passar o dia inteiro como um ladrão pelas serras, farto de caminhos e de seixos, e chegar à noite a sua casa...
- Casa! Casa... Sabe-se lá o que é melhor...
Como uma aragem imperceptível, a dúvida passou pelo Duro sem o tocar. E porque a hostilidade das penedias apertava o corpo de encontro à alma, numa cautela instintiva, os companheiros fecharam-se na sua concha e entraram silenciosos em Folhadela.
- Tem milhão?
No regresso, o Duro ao chegar à cama desejou mais fortemente a mulher. À fome da carne juntara-se um apetite novo, uma necessidade infantil de refúgio e de protecção. Mas, quando de natureza em fogo se chegou a ela, bateu em gelo. Dormisse, que tinha de se erguer cedo.
Um migalho ressentido, adormeceu. E de madrugada, ao acordar, sentia-se roído por uma inquietação que até ali nunca conhecera.
Pela serra a cabo, sem poder aguentar mais aquele sofrimento, renovou a conversa do dia atrás. E o Luciano, como na véspera, atirou lealmente à incompreensão escorregadia dos fragões a semente teimosa da insinuação.
- É melhor a gente não falar nisso. Mulheres e mulas...
Iam buscar centeio a Pinhão Celo, e tiveram de dormir em Alifafé. O Duro não era homem de muito vinho. Contudo, à ceia, para abafar a amargura que o afligia por dentro, carregou-lhe.
O Luciano, esse nem se fala. E às duas por três estavam ambos como carros.
Deitaram-se tarde, na mesma loja onde os machos rilhavam gatão. E da negrura da borracheira, numa purificação universal, que um proclamava heroicamente e o outro covardemente aceitava, saiu a triste claridade da desgraça do Duro. Era como. Entre recriminações, pragas e vómitos, o Luciano foi despejando o saco.
Punha-lhos o Carlos, evidentemente. Pois se já em solteira o metia dentro do quarto! O que é, puta como uma rata, Jesus, honradez maior não havia!...
Apesar de o atravessarem de lado a lado, o Duro sentia mal as facadas do Luciano. O vinho, como uma almofada caridosa, amortecia a dor dos golpes. Em carne viva e anestesiado ao mesmo tempo, lúcido e entorpecido, tudo se
passava como se um trágico pesadelo o atormentasse na aparente realidade de um sonho. O certo e o incerto ofereciam-se-lhe com a mesma desfaçatez movediça. E tentava soltar-se das malhas invisíveis que o prendiam, na ânsia de cindir de uma vez os campos da verdade e da mentira.
O álcool é que não deixava. Quanto mais ele pressentia a fundura das palavras do companheiro, mais aliciante era a volúpia da incredulidade a correr-lhe nas veias. E, sem poder tirar a limpo o exacto sentido do que ouvia, numa paralisia da vontade, adormeceu.
De manhã sabia-lhe a vida a podre, a um gosto repugnante de fel. Contra o costume, ergueu os machos a pontapés. E, sem dizer urna palavra ao colega, que ressonava ainda, tocou vazio para Guiães.
Vinha cego, cheio dum ódio calado, espesso, que o tomava todo, desde a cabeça aos pés. Nem as cinco léguas do caminho rarefizeram aquilo. Entrou em casa a estoirar de desespero, tal e qual sairá de Alifafe. E, quando a mulher ia a abrir a boca, espantada da sua presença súbita e mal encarada, sangrou-a à navalha como quem sangra um porco.
Penitenciária. Os três juízes da Vila, muito formalizados, muito sérios, deram a sentença como se fizessem uma justiça mais humana e mais pura que a do Duro. E o almocreve, em pé., recebeu-a sem pestanejar. Que mais lhe fazia viver na cadeia ou em Guiães, solto ou preso, às grades ou pelas serras a cabo ? Tanger machos, calcorrear caminhos, cozer o corpo ao sol e às geadas, tem sentido se nos espera ao lume ou na cama quente a presença de alguém.
E, numa tarde de invernia, lá se foi cumprir a pena.
Guiães, na pessoa do Luciano, despediu-se dele melancolicamente:
- Se eu soubesse que isto dava uma desgraça assim, nem te dizia nada...
Mas acrescentou, num dilema pessoal, de homem honrado:
- Que também, para falar francamente... Olha, eu cá fazia o mesmo!
O Duro ouvia o amigo com a atenção distante.
O frio que sentia na alma tirava a significação a tudo.
E Guiães não insistiu. Vinte anos depois, só porque em frente da casa onde se dera o crime, na parede do quintal, havia umas alminhas, é que os mais velhos recordavam o almocreve., a explicar a pedra aos filhos.
Um dia, porém, o Duro regressou à terra. Muito mudado no aspecto e no feitio, falou a todos, perguntou por tudo, num desejo diligente de fraternidade e de recuperação. E Guiães olhou-o com desconfiança. Quê? Regressara? Então não morrera por lá?!
Tomado apenas legenda, e legenda em vias de esquecimento, ninguém o desejava novamente palpável na sombra que pouco a pouco se esbatia.
Assim mesmo, fora do tempo, sobrevivente incómodo de uma catástrofe que o destruíra, abriu a casa, deixou entrar o sol pelas janelas, comprou um macho e retomou a vida. Os próprios troncos cortados florescem, às vezes.
- Tem milhão?
- Tenho. 
- A como pede?
- A trinta.
- Valha-o Nossa Senhora. A trinta! Olhe que eu não o vou roubar! Ande lá, deixe-mo a vinte e seis. O pão está a descer... Ainda ontem o paguei em Sangunhedo a vinte e cinco e meio...
Seguia as passadas do velho Duro, sem o ser. E não há falência maior do que imitar o passado, mesmo que seja nosso. Não lutava por nada, e o seu esforço soava falso. Além disso, como o Luciano,, cheio de reumatismo, já não negociava, e nenhum dos novos queria emparceirar com ele, quando entrava num povo, desacompanhado, apenas com o macho atrás e o espantalho do crime adiante, as portas fechavam-se-lhe na cara. Ninguém o atendia. Voltava a Guiães de mãos a abanar.
Na Consoada, sem poder aguentar mais o frio daquela maldição humana, falou em casamento à Rosária, uma pobre desgraçada que se entregava ao primeiro que a requeria. Estava a entrar nos quarenta e cinco. Não era velho ainda. Se ela quisesse...
- Para você me fazer o que fez à outra! Calou-se. Responder, para quê? E foi para casa encher sozinho as quatro paredes da sua solidão.
Na manhã seguinte, dia de Natal, desesperado, meteu-se pela serra acima. Para onde ia ? Sabia lá! Que o levasse o macho, à ventura.
O macho, num chouto demorado de agonia, levou-o pela montanha além até Alifafe.
Pelas terras onde passava, Cristo nascera no coração de todos. Cepos a arder, danças, foguetes., e um ar lavado e festivo no corpo e na alma de cada um. Mas viam-no, e mudavam de semblante.
Passava das onze da noite quando se apeou à porta da estalagem.
E na trave da loja onde o Luciano, bêbado, lhe secara na alma a razão de viver, com a corda da carga, enforcou-se.

Miguel Torga, Contos da Montanha