21/01/2007

Os Três Encontros


Já tinha escurecido. A mulher esperava o seu homem e volta, meia volta ia ao postigo. Como ele tarda! — dizia então. Atiçou as brasas, acendeu a luz da candeia com um graveto que chegou ao fogo, tojou um mocho e sentou-se. Puxou para si a cesta da costura, mas não teve tempo de enfiar a agulha. Abre-se a porta com fragor e uma voz brada:

Haja paz nesta casa! Aqui está quem manda!

Quem assim se manifestava parecia vir de bom cenho.

Credo, homem! Já cuidava que me não aparecias...

Cala-te aí, cala-te, atalha-a o homern. Tira-me mas é já de cima esta manta e os safões. Sempre faz frio! Quem anda lá por fora é que sabe. Ao lume está-se bem.

Ninguém dirá, retoma ela; com a ceia tanto tempo à tua espera e o tempo a passar...

Cala-te, anda, e põe-me ajeito. Se tu bem souberes...

Se eu...

Cala-te, cala-te, só te digo mais esta: vale a pena ralar-se um homem! Olha que pelo caminho fora, depois do que me aconteceu, eu vinha a pensar: vive-se um ror de anos, farta-se um homem de viver! E lá vem um dia.... ó mulher! — um dia quando ele mal se precata...

Vá, desembucha, homem; vem um dia...

Já te disse que me não atrapalhes. Nunca me deixas chegar onde eu quero. Cala-te que daqui a pouco já sabes.

Mas então senta-te e come.

Está bem. E eu que trago uma fome! Ouve cá, consta--me que tu és bruxa, houve quem já mo dissesse um dia...

E tu acreditastes? Só esse gosto que tu tens de me arre­liar!

Não, mas ouve cá! Tu não sabes sempre mais que as outras?

Eu não.

Sabes, sabes... Pergunta-se-te qualquer coisa, tu pões-te logo a cismar e a tua resposta sai certa.

Vá, anda, diz lá o que de mim queres, homem.

Eu não quero nada. Ia-te só a contar a razão da minha demora.

História de amigos ou de raparigas, aposto.

Enganas-te. Primeiro, foi o encontro que tive com um velho.

Que velho?

Bem sei eu! Estive que tempos a espreitá-lo. E o pobrezeco não dava por mim nem por nada, parecia tarouco. Se o viras... Sentado num barranco, com um búzio na mão... Ria-se, falava sozinho, levava o búzio ora a um ouvido, ora a outro... Fartei-me de o ver naquelas manigâncias e bradei-lhe: ó tiozinho, que tal a música, hem? Ele não me respondeu nada. Continuou a rir bai­xinho. Nem um só dente tinha naquela boca! A sua cara, toda ela era uma gelha. Mas dizia umas coisas...

Não foste então capaz de o entender?

Já se sabe que não, e bem o tentei. O velhote deu-me no goto. Parece que falava no mar, no mar... nos seus barcos, nas suas casas... Fossem-no lá entender, coitado! Deixei-o no barranco e mais o seu búzio. E sabes tu com que é que eu havia de topar uma boa légua cá mais adiante? Com o nosso vizinho da ladeira. Pois nem me conheceu! Levava um grande rebanho de reses à sua frente e dava berro de tremer.

Parecia varrido do juízo. Os animais fugiam-lhe, ia tudo tresmalhado. Ai, mas só as pragas que ele rogava... Eu bem lhe queria dar uma ajuda, mas em vão; nem me conhecia, digo-te eu. Parecia um diabo, com os olhos como duas postas de sangue.

Depois, vai-me tu sempre ouvindo, que agora aqui é que anda mistério e grande. Já eu não pensava no velhote nem no nosso vizinho, já me distraíra, vinha eu... se que­res que te diga, nem sei por que alturas vinha, quando começo a ver umas coisas, assim a saltarem, a saltarem... tu nunca farás uma ideia do que aquilo parecia! Umas bolinhas brancas, umas luzes... Eu só fazia era arredá-las com a mão, mas elas sempre a teimar... Juro-te que estava nos meus cinco sentidos. Elas eram mais fortes que um homem! Esta é que é a verdade.

Não terias bebido a tua pinguita?

Cala-te aí que não sabes o que dizes! Cala-te, mulher! Logo vi que me não entendias!

Não faças caso, continua, anda, que não foi por mal.

Pois aquilo encadeava-me e dava-me vontade nem sei de quê. De lhe correr atrás... E foi o que eu fiz... Era tão bonito! Também se ouviam umas vozes... De repente, ai se tu puderas ver! solta-se uma coisa com asas, mas não era um pássaro. Corri para ela, ia sempre a agarrá-la e ela sempre a fugir. Fugia-me e voltava. Mulher, que poderia aquilo ser? Discorre, vá. Eu não tinha bebido. Tudo tão alegre e tão bonito! Aquilo que voava não era pássaro, era muito mais leve e até brilhava. Nunca fui capaz de lhe deitar a mão. Que pena! Anda, tira-me os olhos dessas brasas, mulher, fala.

Se bem queres que te diga...

Adivinha, mulher, já que te chamam bruxa.

Tornas à mesma, tornas?

Não, mas fala.

Queres saber? O nosso vizinho, deves estar lembrado, deixou a sua última seara à mercê dos gaios e dos outros pássaros, e depois não havia quem o calasse. Não é homem de boa cabeça. Do velho também já ouvi falar. Há quem diga que foi muito rico e que hoje não tem nada de seu, mas ainda vive com a mania dos barcos e dos palácios. Não faz mal a ninguém. Nunca pára a nenhuma porta. Anda com uma sacoleta ao ombro e é nela que guarda o búzio. Já a minha avó falava dele, mas ninguém lhe sabe a idade. Toda a sua distracção está no tal búzio.

E a outra coisa, mulher?

Essa, ninguém me tira da cabeça que foi sonho que tu tiveste.

Qual sonho! Eu tinha os olhos tão abertos como agora. Via-a. Era uma coisa linda e com asas... passava--me pela frente, dava-me com elas... e eu corria-lhe atrás...

Espera, homem. Tu estás bem certo de que não so­nhaste?

Se estou! O tal pássaro parecia-me todo mareado e luzia e cantava... Apanhá-lo! Era só o que eu queria. Mas que pudera aquilo ser?

Já faço uma ideia. Ou que fosse sonho ou coisa viva, homem, é aquilo que nunca se alcança. Entendes-me? Essa coisa que te dançava à frente... Ó homem, mas o que te aconteceu é raro. São as nossas ilusões!

Também o creio. Mas, e o velhote? Porque me cru­zei eu também com o velhote e com o nosso vizinho?

Era porque assim te estava destinado. Três encontros tiveste tu, como poucos os têm. O velho, é o que pas­sou, entendes-me? O passado. O nosso vizinho é o que se está a toda a hora vendo, as raivas e os desesperos do presente, e a tal coisa com asas...

Aposto que é o futuro?

Pois.

Mas tu falas sempre certo, mulher. Queres crer que eu tive uma certa pena do velhote e que à vista do nosso vizinho me senti mal cá por dentro? Tal e qual como quando a gente pensa no que já lá vai e naquilo que nos está a acontecer. O que lá vai, chama-nos a lagrimicha ao olho e o que acontece em cada dia, não há maldição que o não cubra.

E isso mesmo. Quanto à outra coisa...

Não digas mais! Quando a gente se põe com a espe­rança. .. até os dias têm asas e mudam de cor. Sabes o que digo, mulher? Nem a ceia já me sabe a nada.

Te arrenego, homem, que a fiz com tanto gosto!

Mas isso de uma pessoa vir pelo seu caminho fora e ter destes encontros...

Foi sorte.

Tu o dizes, lá entendida és.

Tornas-me a chamar essa palavra?

Nem essa nem outra! Fico a cismar. Tudo aquilo que eu vi, ou que fosse a dormir, ou que fosse acordado... como me parece certo, passado assim pela tua boca! Lá se tu és bruxa, não sei, nem me importa.



Irene Lisboa, In Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma