08/01/2007

O príncipe e os três destinos

No mundo oriental, sobretudo em climas tropicais, os três inimigos são o crocodilo, que se oculta nas águas dos rios preguiçosos; a serpente, que suspende o seu longo corpo mortífero de alguma árvore ou espera na poeira do chão que um pé descalço pise o seu dente venenoso, e o cão esfomeado e selvagem, que enraivece e ataca os seres humanos. São estes, na realidade, os três destinos, e nesta história egípcia do «Príncipe e os Três Destinos» o rei, que também era pai, tinha motivos para querer proteger o seu filho. Mas a nota de bondade é dada pela atitude enternecedora de um cãozinho e de um rapazinho, embora este seja príncipe, e é isso que dá ao conto o seu encanto.
Era uma vez um menino filho de um rei que governava um grande país através do qual passava um largo rio, O rei ficou quase louco de alegria quando o menino nasceu, pois sempre desejara um filho para lhe herdar a coroa, e convidou as fadas mais poderosas para verem o maravilhoso bebé. Passada uma hora ou duas eram tantas as fadas que cercavam o berço que o infantezinho parecia correr o perigo de morrer asfixiado. O rei, que as observava ansiosamente, ficou preocupado ao ver o seu ar grave.
- Aconteceu alguma coisa? - perguntou inquieto.
As fadas abanaram todas a cabeça, ao mesmo tempo, e responderam:
- É um bonito rapaz e é uma grande pena, mas o que tem de acontecer acontecerá. Está escrito nos livros do destino que morrerá vítima de um crocodilo, de uma serpente ou de um cão. Se o pudéssemos salvar, salvá-lo-íamos, mas o nosso poder não chega para tanto. - E desapareceram.
Durante momentos o rei ficou imóvel, horrorizado com o que ouvira, mas como era um homem que não perdia facilmente a esperança, começou logo a inventar planos para poupar ao príncipe o terrível destino que lhe fora vaticinado. Mandou chamar o seu mestre construtor e encarregou-o de erigir uma fortaleza no pico de uma montanha, a qual seria mobilada com os objectos mais preciosos daquele palácio e toda a espécie de brinquedos com que uma criança pudesse sonhar. Deu ainda ordens estritas para que uma guarda percorresse o castelo noite e dia.
Durante quatro ou cinco anos o principezinho viveu sozinho no castelo com as suas amas, tomando ar nos vastos terraços rodeados de muralhas com fossos e apenas uma ponte levadiça para os ligar ao mundo exterior.
Um dia, quando já tinha idade suficiente para correr sozinho pelos terraços, olhou para o outro lado do fosso e viu um cãozinho que era uma verdadeira bola de pêlo a saltar e a brincar. Ora o garoto nunca vira um cão, pois estes animais tinham sido afastados dele para evitar que a profecia das fadas se cumprisse. Voltou-se para o pajem que o acompanhava e perguntou-lhe:
- Que bichinho engraçado é aquele, que corre além?
- É um cão, príncipe - respondeu-lhe o pajem.
- Traz-me um igual, para vermos qual corre mais depressa. - E continuou a observar o animalzinho, até ele desaparecer numa volta do caminho.
O pajem ficou sem saber que fazer. Tinha ordens severas para não recusar nada ao príncipe, mas lembrava-se da profecia e achava o assunto muito sério. Por fim achou conveniente contar tudo ao rei e deixá-lo decidir a ele.
- Dá-lhe o cão, se ele o deseja - respondeu-lhe o monarca. - Se não lhe fizéssemos a vontade nunca mais se calaria.
Arranjou-se, por isso, um cachorrinho, tão igual ao outro como se fossem gémeos - e talvez fossem.
Os anos passaram e o rapaz e o cão brincaram juntos, até aquele se tornar alto e forte. A certa altura escreveu ao pai a seguinte mensagem:
«Porque me conservas aqui fechado, sem fazer nada? Estou ao corrente da profecia feita quando nasci, mas crê que prefiro ser morto imediatamente a viver aqui uma vida ociosa e inútil. Por isso, dá-me armas e deixa-me partir, suplico-te, como meu cão». HI.
Mais uma vez o rei satisfez os seus desejos e o moço e o cão partiram num barco para a outra margem do rio, naquele ponto tão largo que quase podia ser um mar. Esperava-o um cavalo preto, amarrado a uma árvore, e o príncipe montou e cavalgou até onde a fantasia o levou sempre seguido pelo cão. Nunca houvera príncipe tão feliz como ele. Por fim avistou um palácio real.
O rei que nele vivia não estava para se maçar a governar bem o seu país nem se importava que o povo vivesse, ou não, alegre e feliz. Passava o tempo a fazer charadas e a inventar projectos em que mais valeria não se ocupar. Quando o jovem príncipe chegou ao reino, acabava o rei de completar uma maravilhosa casa para a sua única filha. A casa tinha setenta janelas, todas a setenta pés do chão, e o rei mandou o arauto real anunciar nas fronteiras dos reinos vizinhos que daria a filha como esposa a quem conseguisse trepar pelas paredes até à janela onde ela se encontrava.
A fama da beleza da jovem era grande e, por isso, não faltaram príncipes dispostos a tentar a sua sorte. O palácio devia parecer muito engraçado, todas as manhãs, com os príncipes de fatos coloridos a treparem pelas paredes de mármore branco. Mas embora alguns conseguissem ir mais longe que outros, nenhum conseguira ainda chegar ao cimo. Desciam e na manhã seguinte tornavam a tentar.
Haviam decorrido já vários dias em tão fúteis tentativas quando o jovem príncipe chegou. Como era simpático e delicado, os outros príncipes receberam-no com agrado na casa que fora posta à sua disposição e mandaram-lhe preparar um banho convenientemente perfumado, para repousar da longa viagem.
- Donde vens? - perguntaram-lhe por fim. - E de quem és filho?
O jovem príncipe tinha motivos para guardar segredo quanto à sua identidade e, por isso, mentiu:
- Meu pai era o estribeíro-mor do rei do meu país, enviuvou e voltou a casar. Ao princípio tudo correu bem, mas assim que a minha madrasta teve filhos seus, começou a odiar-me e eu fugi para que não me acontecesse nenhum mal.
Os jovens comoveram-se com a história e fizeram tudo quanto puderam para o ajudar a esquecer os seus passados desgostos.
- Que estão aqui a fazer? - perguntou-lhes um dia o moço príncipe.
- Passamos o tempo todo a trepar pelas paredes do palácio, na esperança de chegarmos à janela da princesa - respondeu-lhe um deles. - Mas, até agora, ninguém chegou sequer a três metros dela.
- Deixem-me tentar também! - pediu o príncipe. - Mas, antes de começar, quero ver como vocês fazem.
No dia seguinte viu os jovens subirem pelas paredes e fixou os pontos que pareciam mais difíceis, resolvido a subir de outra maneira, quando chegasse a sua vez. Dia após dia observou as tentativas dos pretendentes, até adquirir a certeza de que conhecia de cor o plano das paredes. Tentou, então, graças ao que aprendera com os malogros dos outros, conseguiu agarrar-se a uma pequena saliência após outra e chegou, com grande inveja dos seus amigos, ao parapeito da janela da princesa. De baixo, os jovens viram a mão branca da donzela estender-se para o puxar para dentro.
Um deles correu então ao palácio do rei e gritou:
- A parede foi escalada e o prémio ganho!
- Por quem? - perguntou o rei, soerguendo-se do trono. - A qual dos príncipes posso chamar genro?
- O rapaz que conseguiu chegar à janela da princesa nem sequer é príncipe! É filho do estribeiro-mor do grande rei que vive na outra margem do rio e fugiu do seu país para escapar ao ódio da madrasta.
Estas notícias enfureceram o rei, pois não lhe passara pela cabeça que alguém que não fosse príncipe tentasse conquistar a sua filha.
- Ele que volte para a sua terra! - gritou, colérico. - Esperará que dê a minha filha a um exilado?
E, na sua fúria, começou a partir as taças. O jovem que lhe trouxera a novidade ficou tão assustado que voltou para junto dos amigos e contou o que o rei dissera.
A princesa, que estava à janela, ouviu as suas palavras e pediu ao mensageiro que fosse informar o pai de que fizera um voto de nunca mais comer nem beber se o jovem lhe fosse tirado. O rei ficou ainda mais furioso e ordenou aos guardas que fossem ao palácio e matassem o pretendente bem sucedido. Mas a princesa colocou-se entre ele e os seus assassinos e gritou-lhes:
- Toquem-lhe com um dedo e estarei morta antes de o Sol se pôr! Compreendendo que a ameaça era sincera, os guardas regressaram ao palácio e repetiram-na ao monarca.
Entretanto, a cólera do rei acalmara e ele começava a considerar o que diria o povo de si se quebrasse a promessa. Ordenou pois que trouxessem a princesa e o jovem, e quando entraram na sala do trono ficou tão bem impressionado com o ar nobre do vencedor que a sua cólera se desfez por completo. Correu para ele, abraçou-o e pediu:
- Diz-me quem és, pois jamais acreditarei que não te corre sangue real nas veias.
Mas o príncipe ainda tinha as suas razões para guardar segredo e repetiu a mesma história. O rei tomara-se de tal simpatia por ele que não insistiu. O casamento efectuou-se no dia seguinte e o jovem casal recebeu como presente de noivado grandes manadas de gado e uma enorme propriedade.
Decorridas várias semanas o príncipe disse à mulher:
-A minha vida está nas mãos de três criaturas: um crocodilo, uma serpente e um cão.
- Que temerário és! - exclamou a princesa, abraçando-o.
- Se sabes isso, porque trazes contigo aquele imundo animal? Darei ordens para o matarem imediatamente!
Mas o príncipe nem quis ouvir falar em tal coisa:
- Matar o meu querido cãozinho, que foi meu companheiro de brinquedos desde cachorrinho? Oh, jamais o consentirei!
O mais que a princesa conseguiu que lhe prometesse foi que usaria sempre uma espada e iria sempre acompanhado de alguém quando saísse do palácio.
Poucos meses depois do seu casamento, o príncipe soube que o pai estava velho e doente e desejava ter o filho a seu lado. O jovem não pôde ficar surdo a semelhante mensagem, despediu-se ternamente da mulher e iniciou a viagem de regresso. Como a distância era grande, foi obrigado a descansar muitas vezes na estrada e sucedeu que, quando certa noite dormia numa cidade na margem de um grande rio, um enorme crocodilo saiu da água e se dirigiu, silenciosamente, em direcção ao quarto do príncipe. Por sorte um dos guardas acordou no momento em que a fera tentava passar, sorrateira, e fechou-o num grande átrio, guardado por um gigante que só o abandonava de noite, quando o crocodilo dormia. Assim continuou durante mais de um mês, pois quando o príncipe pensou que seria pouco provável que pudesse abandonar outra vez o reino do pai, mandou chamar a mulher e recomendou ao mensageiro lhe dissesse que aguardaria o seu regresso na cidade da margem do grande rio. Quanto mais tempo permanecesse na cidade, maior seria o perigo de, um dia, o crocodilo o comer. Nas semanas que se seguiram o príncipe entreteve-se o melhor que pôde, embora contasse os minutos que faltavam para a chegada da mulher. Mal ela chegou, iniciou os preparativos para seguirem para a corte. Naquela noite, contudo, enquanto o marido dormia, a princesa viu uma mancha negra a um canto do quarto, uma mancha que parecia tornar-se cada vez mais comprida e aproximar-se lentamente das almofadas onde o príncipe repousava. Estremeceu de terror e o que quer que era devia ter ouvido o levíssimo ruído, pois ergueu a cabeça. A jovem viu então tratar-se da cabeça comprida e achatada de uma serpente e lembrou-se da profecia. Saiu da cama sem acordar o marido, pegou numa pesada vasilha de leite que se encontrava em cima de uma mesa e colocou-a no chão, no caminho do réptil, pois sabia que nenhuma serpente do mundo pode resistir ao leite. Susteve a respiração ao vê-la aproximar-se e erguer outra vez a cabeça, como se cheirasse alguma coisa deliciosa, enquanto a língua bifurcada lhe saltava gulosamente da boca. Por fim os seus olhos depararam com o leite e começou a lambê-lo tão depressa que foi um milagre não se asfixiar, pois não tirou a cabeça de dentro da vasilha enquanto nela restou uma gota de leite. Depois caiu no chão e adormeceu pesadamente. Fora isso mesmo que a princesa esperara, pois muniu-se da espada do marido e separou-lhe a cabeça do corpo.
Na manhã seguinte a esta aventura o príncipe e a princesa partiram para o palácio do rei, mas quando chegaram já o encontraram morto e fizeram-lhe um funeral magnificente. Depois disso o príncipe teve de examinar as novas leis decretadas na sua ausência e de tratar de tantos negócios de estado que acabou por adoecer de fadiga e ser obrigado a ir para um dos seus palácios nas margens do rio, a fim de descansar. Depressa recuperou a saúde e recomeçou a caçar e a matar patos selvagens com o seu arco, sempre acompanhado pelo seu cão, agora já muito velho.
Uma manhã o príncipe e o cão caçavam, como de costume, e ao perseguirem uma presa aproximaram-se da margem do rio. O príncipe corria velozmente atrás do cão quando quase caiu sobre qualquer coisa que se atravessava no seu caminho e parecia um tronco. Para sua surpresa, uma voz falou-lhe e o jovem viu tratar-se de um crocodilo o que tomara por um tronco.
- Não podes escapar-me - ouviu a fera dizer, quando se refez da surpresa. - Sou o teu destino e vás para onde fores e faças o que fizeres, encontrar-me-ás sempre à tua frente. Há apenas uma maneira de te libertares do meu poder: se conseguires abrir na areia seca uma cova que permaneça cheia de água, o meu encanto quebrar-se-á; se não conseguires, morrerás depressa. Dou-te essa oportunidade. Agora vai.
O jovem afastou-se tristemente e, ao chegar ao palácio, fechou-se no seu quarto e recusou-se a ver fosse quem fosse durante o resto do dia, até mesmo a esposa. Ao pôr do Sol, porém, vendo que continuava a não sair qualquer ruído do quarto do marido, a princesa assustou-se e fez tal alarido que o príncipe foi obrigado a retirar a tranca da porta e a deixá-la entrar.
- Como estás pálido! - exclamou, preocupada. - Estás ferido? Conta-me, suplico-te, o que te atormenta, pois talvez eu possa ajudar-te!
O príncipe contou-lhe tudo, incluindo a tarefa impossível de que o crocodilo o incumbira.
- Como pode um buraco na areia permanecer cheio de água? perguntou por fim. - Claro que se escoará toda! O crocodilo chamou-lhe uma «oportunidade», mas bem podia ter-me logo arrastado para o rio. Razão teve ao dizer que não lhe posso escapar.
- Se isso é tudo - respondeu a princesa -, eu própria te posso libertar, pois a fada minha madrinha ensinou-me a conhecer o uso das plantas e no deserto, não longe daqui, existe uma ervazinha de quatro folhas capaz de conservar a água na cova durante um ano inteiro. Irei apanhá-la de madrugada e tu poderás começar a abrir a cova assim que quiseres.
A princesa falara despreocupada e alegremente para tranquilizar o marido, mas sabia que não tinha uma tarefa fácil na sua frente. No entanto, era corajosa e enérgica e estava decidida a que, de uma maneira ou de outra, o marido se salvasse. As estrelas brilhavam ainda quando saiu do palácio num burro branco de neve e se afastou do rio em direcção ao oeste. Durante muito tempo nada mais viu que uma extensa vastidão de areia que se tornava mais quente à medida que o sol subia. Apoderou-se dela e do burro uma sede terrível, mas não havia nenhuma nascente onde pudessem saciá-la e, mesmo que houvesse, não teria tempo para se deter, pois ainda tinha muito caminho que percorrer e devia regressar ao palácio antes de anoitecer, não fosse o crocodilo declarar que o príncipe não cumprira as condições estipuladas. Disse palavras animadoras ao burrinho, que zurrou em resposta, e continuaram a avançar firmemente. Que contentes se sentiram ambos quando avistaram, ao longe, uma rocha escarpada! Esqueceram que tinham sede e que o sol estava quente e o chão pareceu voar debaixo deles, até que o burro parou, por iniciativa própria, à sombra fresca. Mas embora o burro pudesse descansar, a princesa não podia, pois a planta que procurava crescia no cimo da rocha, em redor de cuja base havia uma larga fenda. Felizmente trouxera consigo uma corda e, dando-lhe um nó corredio numa ponta, atirou-a para o outro lado, com todas as suas forças. Na primeira tentativa a corda escorregou para o fosso e ela teve de a puxar e atirar de novo, mas por fim o nó prendeu-se em qualquer coisa - não podia ver o quê - e a jovem confiou todo o peso do seu corpo à precária ponte, que podia partir-se de um momento para o outro e provocar a sua queda entre as rochas. Se assim acontecesse, a sua morte seria tão certa como a do príncipe.
Mas tal não aconteceu e a princesa chegou, sã e salva, ao outro lado. Faltava a parte pior da sua tarefa. Assim que pisou uma saliência da rocha, a pedra partiu-se debaixo dos seus pés e deixou-a no mesmo lugar. Entretanto, as horas passavam e era quase meio-dia. O coração da pobre princesa estava cheio de desespero, mas ela não desistia da luta. Olhou à sua volta e encontrou, um pouco acima, uma pedra pequena, que parecia mais resistente que as outras, e, apoiando-se muito ao de leve nas que ficavam de permeio, conseguiu, à custa de tremendo esforço e com as mãos feridas e a sangrar, chegar ao cimo do rochedo. Mas aí soprava um vento tão forte que a poeira levantada quase a cegava e teve de se deitar no chão e procurar a preciosa erva às apalpadelas.
Durante momentos terríveis pensou que a rocha era árida e que a sua viagem fora inútil, pois por muito que tacteasse só encontrava cascalho e pedras. De súbito, os seus dedos tocaram algo macio, numa fenda. Era uma planta, sem dúvida, mas seria a que procurava? Não podia ver, pois o vento soprava cada vez com mais força, mas deixou-se ficar onde estava e contou as folhas. Uma, duas, três... sim, sim, eram quatro! Agarrando um punhado de plantas, arrancou-as e conservou-as bem seguras na mão, enquanto se virava, quase arrastada pelo vento, para descer a rocha.
Quando se encontrou na encosta o vento parou imediatamente e a jovem desceu do rochedo tão depressa que pareceu um milagre não cair no abismo. Teve a sorte, porém, de ir parar perto da corda e depressa chegou ao outro lado. O burro zurrou alegremente ao vê-la e partiu para casa o mais depressa que pôde, nem parecendo aperceber-se de que o solo que pisava estava tão quente como o Sol.
Parou na margem do grande rio e a princesa correu ao local onde o príncipe se encontrava, junto da cova que abrira na areia seca, com um enorme recipiente de água a seu lado. A pouca distância, o crocodilo piscava os olhos ao sol, com as fauces branco-amarelas escancaradas e a mostrar os dentes aguçados.
A um sinal da princesa, o príncipe despejou a água na cova e, quando esta ficou cheia até acima, a jovem atirou-lhe para dentro a planta de quatro folhas. Resultaria o encanto ou a água esgotar-se-ia lentamente, através da areia, e o príncipe morreria, vítima do horrível monstro? Durante meia hora não desviaram os olhos da água, mas a cova permanecia tão cheia como no princípio, com a florinha verde a flutuar na superfície. O príncipe voltou-se, então, com um grito de triunfo e o crocodilo mergulhou, furioso, no rio.
O príncipe libertara-se para sempre do segundo dos seus três destinos! Ficou a ver o crocodilo desaparecer, feliz por estar livre, quando lhe chamou a atenção um pato selvagem que voou perto deles, a procurar abrigo entre os caniços da margem. Logo a seguir o cão surgiu, disparado, a perseguir a ave, e chocou violentamente com as pernas do dono. O príncipe cambaleou, desequilibrou-se e caiu de costas no rio, onde a lama e os juncos o prenderam. Gritou por socorro e a mulher acorreu, trazendo, felizmente, a corda consigo. O pobre e velho cão morreu afogado, mas o príncipe foi puxado para terra.
- A minha mulher - declarou - foi mais forte que o meu destino!


Pearl Buck, Histórias Maravilhosas do Oriente