31/01/2007

O castigo



Foi na noite de S. João que o Bernardo lhe bateu à porta, aflito.
- Tenha paciência, doutor, e venha-me ver a patroa. Aquilo parece que está ruim...
Fez-se de novas. 
- Aquilo, o quê?
- O parto.
- Ela andava grávida? Nunca reparei. Eu também não a vejo há meses...
- Com os outros nunca houve novidade. Mas desta vez... Acho que tem a criança atravessada. Pelo menos é o que diz a Tia Rosa...
- Desatravessa-se. Se for apenas isso... Quando principiaram as dores?
- Já ontem. 
- E demoraste tanto...?!
- Sempre à espera, a cuidar que a coisa se resolvia... Costumava despachar-se sem dar trabalho a ninguém...
- Bom, eu passo por lá. É só o tempo de preparar os ferros.
De preparar os ferros... e o ânimo. Ora ali tinha, para não ser palerma! Todo finório, a cuidar que arrumara o assunto na ocasião... Que azar o raio do miúdo encravar-se na barriga da mãe! Maldita hora em que se metera com semelhante mulher! Mas quê! Quem é que resistia? Que desapertasse a saia, despiu-se toda. Dói aqui? Mais abaixo, mais abaixo... Ai, que me faz cócegas!... Pronto: se a trazia fisgada, se já vinha disposta à maroteira... Santo, com franqueza!...
O mal todo é que a danada parecia terra de semeadura! E quando à terceira ou quarta vez lhe veio com lérias, que estava grávida e o filho era dele, só viu uma saída: pôr fim ao idílio no mesmo instante. Muita pena, muita pena, mas responsabilidades, não. Tinha marido, demais a mais... Portanto... Além de que, num caso assim, nunca se sabia ao certo... Adeus! Adeus! Surpreendida e despeitada, a alma do diabo, a princípio, ainda tentou reagir. Mas arriscava muito num jogo às claras. O homem, valente e assomadiço, a quem devesse, pagava. Fortalhaço e com tal génio, nem se chegava a compreender que o enganasse. Mas ela é que lá sabia... Segue-se que teve de se acomodar. Quando se cruzavam na rua, pareciam dois desconhecidos. Ele é que a olhava de soslaio, a inventariar-lhe a cintura, cada vez mais grossa. Como elas se arranjam! 
Já a caminho da casa do Bernardo, ainda o rodízio interior continuava a girar. Como elas se arranjam, realmente!
Quando entrou, a Silvana não se deu por achada. Gemeu, e queixou-se como uma doente qualquer. _ Estou numa cruz, senhor doutor!
Aliviado e desapontado ao mesmo tempo, tentou iluminar o acolhimento impessoal com o sol de uma reflexão céptica e recôndita: até onde podia ir a dissimulação feminina! Todas iguais!...
O que vale é que as conhecia... Se conhecia!... E deu prazenteiramente inicio à prestidigitação profissional.
- Que exagero! Uma coisa que não presta para nada! Valha-a Nossa Senhora. Daqui a pouco passa tudo e já nem se lembra.
- Os santos o ouvissem. Mas não. Tenho cá um pressentimento...
- Sempre cuidei que fosse mais corajosa! Que desanimada! Ora vamos lá ver isso...
Descobriu-a, apalpou e auscultou a barriga, e não pôde disfarçar uma sombra reticente na voz.
- Pois é. Realmente...
- Vê como eu tinha razão?! Está mal encaminhado. Eu sentia! Nunca tal me aconteceu! Fartinha de puxar...
- A gente encaminha-o. Sossegue. Pediu água e sabão, tirou o casaco, arregaçou a camisa, lavou-se e desinfectou-se, e começou a actuar.
Com os brios acicatados pela insólita recepção, tentou esforçadamente cumprir a promessa feita. Mas não pôde ir além da boa vontade. A doente berrava, curtida de dores, defendia-se, e nenhuma manobra resultava. Obrigado a reconhecer a sua impotência, retirou a mão a pingar do poço escuro, e deu-se por vencido.
- Temos de a levar para o hospital. É preciso anestesiá-la.,, e só lá.
- O senhor é quem manda. Se vê que não pode fazer o serviço aqui...
- Não. Meteram a parturiente num carro, e os vinte quilómetros de caminho foram de bom angúrio.
O automóvel rodava suavemente e a Silvana emudecera. De vez em quando o Bernardo suspirava. E o médico, solícito, deitava umas gotas de bálsamo na ferida renitente.
- Nestas ocasiões, o essencial é manter a calma. Não ferver em pouca água...
Passaram Gouvães, S. Cristóvão, Penalva. Em Soutelo havia arraial no largo.
- Bonitas iluminações!
O entusiasmo festivo caiu mal no ambiente soturno do veículo. E o médico disfarçou o deslize com a nuvem de fumo dum cigarro.
- Ora cá estamos nós chegados! Vão ver em que instantes o assunto fica arrumado.
Doces palavras, que os factos, infelizmente, não confirmaram.
Na sala de operações, o Dr. Baltasar, que fora avisado pelo telefone e esperava a doente, em vez de resolver o caso, complicou-o ainda mais. Provocada pela violência das contracções ou por qualquer manobra canhestra, havia uma rotura do útero, onde a mão do feto se introduzira. E quando o velho parteiro, ao cabo de grandes esforços, conseguiu fazer a versão e extrair a criança, já morta, de resto, foi como se destapasse um tanque. Um jacto de sangue bateu-lhe em cheio na cara, inutilizou-lhe os óculos e ensopou-lhe a bata.
Sem a serenidade de outrora que o tornara conhecido, em plena decrepitude, diante do contratempo, o obstetra descomandou-se. Numa covardia senil, voltou pura e simplesmente costas à catástrofe. _ O colega tome conta disto, que eu não posso mais.
- Pelo amor de Deus, senhor doutor! Não abandone assim a doente! Opere-a, faça qualquer coisa!
- Desisto. Desisto. Tenha paciência e resolva o problema da maneira que entender.
E desarvorou. Num terror de náufrago, o Dr. Daniel pôs-se a injectar coagulantes a torto e a direito, a meter mechas, a comprimir o ventre com toda a força. Nada. Era chover no molhado. A hemorragia inundava tudo.
- Mais soro, menina! E traga compressas maiores...
A Silvana acordara já e, do fundo da sua exaustão, veio em socorro daquela angústia. 
- É escusado tanto trabalho. Ninguém me pode valer. Foi castigo...
- Cale-se! Ao cabo de meia hora de luta, calafetado de todas as maneiras, o boeiro cedeu finalmente.
O médico respirou fundo. 
- Parece que estamos safos! - proclamou, mais para se convencer do que convencido.
O sangue parara, realmente. Mas o curso do rio mudara apenas de direcção. Era dentro do próprio ventre que a torrente agora desaguava.
- Eu sinto-o correr à mesma... - avisou a Silvana.
- Cale-se, já lhe disse!
O pulso caía a olhos vistos. Uma palidez de cera cobria o rosto da infeliz.
- Cardiazol, depressa!
- Quero o meu homem ao pé de mim! - pediu a Silvana, com súbita energia.
- Mande-o entrar. Chamado pela enfermeira, o Bernardo, hesitante, assomou à porta do quarto e aproximou-se do leito pé ante pé.
- Então?
- Escoo-me... É uma torneira aberta... Num gesto gracioso, ainda feminino, estendeu a mão esquerda, que o marido timidamente segurou. A direita apertava já, crispadamente, a do médico.
Com os dois homens assim presos a si, um de cada lado da cama, pareceu recobrar as forças. Um fulgor estranho iluminou-lhe os olhos.
- Vou morrer, Bernardo, e quero-te pedir perdão...
- Não tenho nada que te perdoar...
- Tens. Enganei-te muitas vezes...
- Ora, enganaste!
- Enganei.
- Deixa lá isso, agora...
- Ouve-me, embora te custe. Preciso de limpar a minha consciência antes de prestar contas a outro juiz...
- Sossega, sossega...
- Não merecias as traições que te fiz. Fui uma porca. Este filho nem sequer era teu...
Aterrado, o médico, com um gesto, mandou sair a enfermeira.
- A primeira vez que te faltei ao respeito foi com o Avelino. Logo no primeiro ano do nosso casamento. Apenas nasceu a pequena. Nem sei como aquilo começou... Perdoas-me?
- Perdoo.
- A segunda foi com o Guilhermino. Andei metida com ele seis meses certos. Perdoas-me?
- Estás perdoada.
- A terceira... Arfava.
- Oxigénio, menina! A ordem de comando bateu sem eco na cal das paredes. E o Dr. Daniel, num vislumbre de salvação, tentou libertar-se, a pretexto de ir chamar à porta. Mas a garra da moribunda manteve-o seguro no pelourinho.
-...Foi com o Lourenço. Vinha eu de Fermentões... Perdoas-me?
- Perdoo tudo.
O pingue-pingue do gota-a-gota ia medindo os segundos intermináveis. A palidez do rosto da agonizante era já cadavérica. As palavras saíam-lhe dos lábios quase ciciadas.
O médico, a suar em bica, com a mão livre apalpava-lhe o pulso. Em frente dele, o Bernardo parecia um fantasma.
- A quarta, a última ... Mal eu futurava que havia de morrer por causa ...
Como um condenado que enfrenta a hora final, o Dr. Daniel retesou a vontade.
A moribunda encarou-o durante alguns instantes, voltou a olhar o marido, e murmurou a custo:
- Foi com o...
Um nó de silêncio apertou-lhe a garganta. De olhos esbugalhados, ficou hirta, a fitar o tecto numa espécie de espanto alheado.
Num terror que não tinha o mesmo sinal em ambos, debruçaram-se os dois sobre o cadáver.
- Acabou-se-lhe o sofrimento... - murmurou o médico, exausto.
- Acabou... - respondeu o Bernardo, a rilhar a voz.
- Era preciso descer-lhe as pálpebras...
- Pois era. Mas eu não tenho coragem.
- Nem eu.

Miguel Torga, Contos da Montanha