07/01/2007

A História do Hidroavião


Era uma vez um homem sentado diante de casa. a olhar para o rio. Casa é maneira de falar por­que não se pode chamar casa a uma barraca de tábuas costuradas com arame e reforçadas de pla­cas de cartão, com um pedaço de zinco a servir de telhado. Mas nessa parte da cidade, ern Cabo Ruivo, ao pé dos fumos da Siderurgia, quem tinha chegado de África, como o homem, sem mais roupa que a do corpo e sem mais bagagem que um baralho de cartas, era dessa forma que se go­vernava. O Boeing de Angola desembarcava em Lisboa as pessoas fugidas à guerra, e no dia seguinte lá andavam elas, truca truca, a martelar cabanas num baldio de ervas frente aos vapores do Tejo. en­tre armazéns ao abandono e um hidroavião que era um esqueleto de morcego, com a peie de lona a desfazer-se debaixo da surpresa das gaivotas.

Barracas assim contavam-se para cima de três dúzias, umas mais perto outras mais longe da água, feitas com os desperdícios de uma obra (tijolos, pranchas, areia, ruínas de andaime) que não se com­pletara sabe Deus porquê, deixando ferramentas oxidadas, buracos de cabouco e sacos de cimento, de que as pessoas se serviam para inventar moradias. Passeava-se por ali corno num acampamento de pobres, numa aldeia de miséria: havia quem secasse camisas numa corda entre dois paus, quem soprasse o lume de uma panela de esmalte, agachado para urn borralho de cinzas, havia cães arre­dios, medrosos de pedras, a farejarem canecos, havia crianças mulatas a brincarem com bocaditos de canas, havia a cidade que parecia um grande pulmão de chaminés e janelas a respirar nas costas do homem, e havia sobretudo o rio, que para aquelas bandas, a bem dizer, nem rio era: um pân­tano cinzento, horizontal até aos morros de Alcochete, ou do que, para viajantes de Angola, se cal­culava que fosse Alcochete, a brilhar, à noite, lantejoulas de leque sevilhano.

Ao homem sentado diante de casa tanto se lhe dava que se tratasse de Alcochete, Nova Iorque ou Paris: tinha um rectângulo de cortiça nos joelhos, para a paciência de cartas, e ao levantar os olhos do baralho, com a cabeça ainda em Luanda, não era o Tejo que via: era urna ilha de palmeiras, uma concha de arcadas com aves pernaltas nas empenas, e fragatas a gasóleo largando para a pesca, num rastro de motores e batucada.

O homem morou quarenta e sete anos em África, a trabalhar de motorista de camião ao serviço dos holandeses dos diamantes, e custava-lhe habituar-se a uma terra de frio onde ninguém o co­nhecia, tirando os vizinhos da desgraça que dividiam com ele uma língua de lama e alforrecas, fur­tada aos desenfades do rio, E mesmo assim: calado como era. as poucas frases que dizia reservava--as para os azares do baralho, valete de ouros sobre a dama de paus, cinco de copas sobre seis de espadas, urn duque desesperado a acenar asas de mocho, sem terno preto onde ancorar.

De forrna que estava o homem diante de casa, às voltas com ases e manilhas, e sentado ao lado dele, num balde ao contrário, um cego de óculos de mica. Muito direito, atento com os ouvidos que é como os cegos vêem, a enrolar uma mortaíha com deditos de croché, e mal os sons rareavam, si­nal de que o homem hesitava a pensar, o cego perguntava logo, inquieto;

— Como é Lisboa, Artur?

E, ao fim de um silêncio comprido, o homem, a desfazer a paciência com a mão aberta e a olhar para Alcochete:

— Lisboa?

Guardava as cartas de má morte no bolso, e ficava-se, de pálpebra rancorosa, no hidroavião, à medida que pelas redondezas começava uma agitação de ralhos e de caldos em púcaros de folha, que era o jantar de quern viera de Angola, sem dinheiro para urna quarta de chouriço. O homem não comia: demorava-se crepúsculo adentro até o hidroavião desaparecer nas luzinhas de Alcochete ou de Paris, que para os nascidos em África, como era o caso, era igual ao litro, e o cego ao lado dele. também sem caldo, impassível nos óculos de mica, a puxar fósforos e a acender o cigarro na colher da mão. Já estava tudo escuro, só candeeiros a tremelicarem ao longe e um ventinho nas er­vas, e o homern, de gola levantada por causa das traições de bronquite, a pensar que ele e o bara­lho se achavam em Portugal há três semanas no mínimo: do andar na Amadora que umas senhoras de fitas ao pescoço lhe prometeram no aeroporto nem a sombra, e nisto o cego, curioso, a chupar o cigarro, numa voz que se confundia com os grilos:

— Como é Lisboa, Artur?

O homem olhou em torno: ralhos, estalos de púcaros de folha, choros a fosforescerem aqui e acolá, pavios de azeite em amparos de tela, a labareda da Siderurgia, no meio de tubos doirados, inundando trevas de carvão. Nada, em resumo, que se comparasse às noites de Angola, entre Malanje e Luanda: o homem-motorista, estrada fora, de bife corn batatas no papo, a mascote, que era uma pretinha de tanga, a dar-a-dar no espelho, uma paz de capim no mundo inteiro, e um quarto como deve ser. alugado na Mutamba. à sua espera, E como se não bastassem a barraca, a fome e o ventinho das gripes, o cego muito direito, embrulhado no tabaco e nos óculos de mica, a insistir, na vozinha de grilo:

— Como é Lisboa, Artur?

Acabado o caldo os de África espalhavam-se no baldio, entre o armazém e o pontão, a tropeça­rem ao acaso nos desniveis de toupeira e calhaus adormecidos. Um indiano de sandálias tinha acen­dido urn candeeiro de petróleo nurn contentor tombado, feito um balcão com caixotes, colado um cartaz com a equipa do Belenenses na ferrugem, vendia fiado gasosas e cervejas mornas, à espera que os clientes recebessem o subsídio do Governo, e o cego na dele: — Como é Lisboa. Artur?

De ideias fixas o cego, pensou o homem cuja cabeça continuava no canto oposto do mar, agarrada ao musseque onde crescera, entretendo-se sozinho no quintal das traseiras, sob um braço de tília. De certo modo, embora estivesse em Cabo Ruivo permanecia em África, com a mãe e as irmãs mais velhas (o pai trabalhava há séculos no Congo e es­crevia-lhes, no Natal, postais de Boas Festas com selos esquisitos) e, por estra­nho que parecesse, o que recordava me­lhor não eram coisas de adulto, já ho­mem, motorista dos holandeses dos diamantes, a conduzir um camião para cá e para lá, de Malanje a Luanda e de Luanda a Malanje, O que, pelo contrário, lhe aparecia mais vezes na lembrança, em sonhos até, que é quando, como os olhos estão fechados, a gente enxerga para dentro, era o braço de tília e ele de calções, pasmado, a observar um sapo numa gre'ta de muro, um sapo parecido com o dono da cantina, onde a mãe o mandava comprar arroz, favas ou cebola para o almoço de domingo, dia em que se alargava um bocadinho no cozido. E no instante em que se principiava a sentir o gosto da cenoura às rodelas na boca, lá vinha o cego com a cantilena do costume;

— Como é Lisboa, Artur?

O cego era criatura de adereços: possuía uma bengala de metal que se encolhia e aumentava como os metros articulados dos carpinteiros, e nas raras oca­siões em que se levantava do balde caminhava de queixo ao alto, varrendo os passos com aquela espécie de antena: ia do balde à arrecadação ali perto, em que escondia um cobertor, e como, por assim dizer, era sempre noite para ele, a bengala impedia-o de esbarrar em algerozes e de tombar em valados. Talvez fosse o único, dos que chegaram de África, capaz de caminhar na cidade, se­guindo a haste mágica que devia ter urn mapa das ruas no castão. Se quisesse ia de certeza de Cabo Ruivo à Amadora (é um exemplo) sem uma hesitação para amostra, pelo que o do baralho não en­tendia a pergunta, soprada, com o ventinho da tarde, nos intervalos das cartas:

— Como é Lisboa, Artur?

E o indiano entrincheirado no caixote, a designar com o desprezo do dedo as gaivotas, o hi­droavião a desfazer-se e os pântanos do Tejo, o indiano das gasosas, desiludido com a clientela que lhe não pagava, a lembrar-se do seu café de dois andares em Moçamedes, onde os fazendeiros lhe limpavam todas as tardes, e a pronto, as garrafas da loja, o indiano, inchado de desgosto, a arras­tar-se no contentor como um peru de Natal:

— Lisboa é esta infelicidade, amigo.

E, pelo gesto, não era só dos clientes que falava: era das barracas, dos caldos, das camisas nas cordas, dos cachorros vadios sempre à cata de sobras, e talvez que dele próprio também, que nos tempos de África nem um automóvel americano lhe faltava, comprido como uma baleia, de dentes dos cromados ao léu, com os olhos dos faróis arredondados de zanga contra os imbondeiros. Falava das barracas, dos caldos, das camisas nas cordas, dos cachorros e dele próprio, mas o desprezo do dedo, por acaso com um anel de prata lavrada a alumiar-lhe o gesto, fixava-se no hidroavião que era um esqueleto de morcego, com a pele de lona a desfazer-se debaixo da surpresa das gaivotas. Fixava-se no hidroavião e o homem, atrás do dedo, a olhar as asas tombadas, os flutuadores, que pareciam pantufas gigantescas de caminhar sobre marés do Tejo, as cadeiras sem passageiros, a hé­lice de moinho de poço, o lugar do piloto encostado ao volante, parecido com o dos camiões dos diamantes: só não havia a mascote da pretinha de tanga, pendurada de uma guita, a dar-a-dar no es­pelho. Isso, pensou o homem, não constituía problema: a questão era uma pessoa instalar-se ao guiador, que em chegando a Luanda encontraria, apesar da guerra que por lá faiscava, a destruir vi­vendas e jardins, uma capelista pronta a vender uma mascote nova, de modo que alcançaria Malanje com a boneca, toda contente, a dançar merengues no vidro. Quanto a colegas de viagem, que de Lisboa a Malanje é um esticão, convidava o cego que, como ele, não-tinha caldo nem família, e de caminho dava uma volta sobre Cabo Ruivo e explicava-lhe a cidade: monumentos, estátuas, igrejas, o carrossel do oito, bairros de ricos, tudo. Largariam de manhã cedo, à hora que os albatrozes se levantam das mimosas do lodo e o nevoeiro se esfuma em Alcochete, Nova Iorque ou Paris, mos­trando paus de fio e telhados tremendo à flor da água, e o indiano do automóvel das Américas, in­crédulo:

— Esse hidroavião não vale nada, coitado.

E realmente não parecia valer nada: em três semanas que o homem ali estava, sentado diante de casa com o baralho de cartas, o hidroavião quietinho, sem que um farrapo de lona se mexesse ao vento, sem que o leme da cauda desse sinal de abano, sem que qualquer luz se acendesse na car-linga. Resumindo: sem nenhuma vontade de voar. Um trambolho, decidiu o homem, uma coisa inú­til, uma gaivota morta, e continuou a pensar isto à medida que se dirigia para ele, escoltado pelo cego dos óculos de mica, muito direito, muito seguro do caminho, a tricotar a erva com a bengalinha de metal.

Sentou-o num lugar à janela, recomendou-lhe:

— Segura-te.

Ocupou o volante, experimentou os pedais, as alavancas e as manivelas perras, e voltou a cabeça para informar o outro:

— Aguenta um bocadinho que já te mostro Lisboa.

Anos depois, muitos anos depois de o homem e o cego terem levado sumiço, sabe-se lá para onde, o indiano continuava a jurar, a quem o queria ouvir, que o hidroavião não saiu do mesmo sí­tio, não se deslocou um milímetro, não se ergueu nem isto do pontão. É neste ponto que as diver­gências começam: há quem garanta que os empregados da Câmara vieram com uma furgoneta e transportaram para a sucata aquele morcego sem préstimo. Mas há também quem afirme, pronto a jurar, que o hidroavião, com o homem e o cego lá dentro, correu um nadinha na água, subiu a pino, e partiu, sobre Lisboa, na direcção de Luanda, na direcção do mar. E acrescenta quem sabe que se via um braço, saído de uma janela, a mostrar monumentos e igrejas a uns óculos de mica, e uma pretinha de tanga, muito alegre, suspensa de um cordel, a dar-a-dar no pára-brisas em acenos de adeus.


António Lobo Antunes, A História do Hidroavião