09/01/2007

Devaneio e embriaguez de uma rapariga

Pelo quarto parecia-lhe estarem a se cruzar os eléctricos, a estremecerem-lhe a imagem reflectida. Estava a se pentear vagarosamente diante da penteadeira de três espelhos, os braços brancos e fortes arrepiavam-se à frescurazita da tar­de. Os olhos não se abandonavam, os espelhos vibravam ora escuros, ora luminosos. Cá fora, duma janela mais alta, caiu à rua uma cousa pesada e fofa. Se os miúdos e o mari­do estivessem à casa, já lhe viria à ideia que seria descuido deles. Os olhos não se despregavam da imagem, o pente tra­balhava meditativo, o roupão aberto deixava aparecerem nos espelhos os seios entrecortados de várias raparigas.

«A Noite!», gritou o jornaleiro ao vento brando da Rua do Riachuelo, e alguma cousa arrepiou-se pressagiada. Jo­gou o pente à penteadeira, cantou absorta: «Quem viu o pardalzito... passou pela janela... voou pr'além do Minho!» — mas, colérica, fechou-se dura como um leque.

Deitou-se, abanava-se impaciente com um jornal a far­falhar no quarto. Pegou o lenço, aspirava-o a comprimir o bordado áspero com os dedos avermelhados. Punha-se de novo a abanar-se, quase a sorrir. Ai, ai, suspirou a rir. Te­ve a visão de seu sorriso claro de rapariga ainda nova, e sorriu mais fechando os olhos, a abanar-se mais profunda­mente. Ai, ai, vinha da rua como uma borboleta.

«Bons dias, sabes quem veio a me procurar cá à casa?», pensou como assunto possível e interessante de palestra. «Pois não sei, quem?», perguntaram-lhe com um sorriso galanteador, uns olhos tristes numa dessas caras pálidas que a uma pessoa fazem tanto mal. «A Maria Quitéria, ho­mem!», respondeu garrida, de mão à ilharga. «E se mo per­mite, quem é esta rapariga?», insistiu galante, mas já agora sem fisionomia. «Tu!», cortou ela com leve rancor a pales­tra, que chatura.

Ai que quarto suculento!, ela se abanava no Brasil. O sol preso pelas persianas tremia na parede como uma gui­tarra. A Rua do Riachuelo sacudia-se ao peso arquejante dos eléctricos que vinham da Rua Mem de Sá. Ela ouvia curiosa e entediada o estremecimento do guarda-loiça na sa­la das visitas. D'impaciência, virou-se-lhe o corpo de bru­ços, e enquanto estava a esticar com amor os dedos dos pés pequeninos, aguardava seu próprio pensamento com os olhos abertos. «Quem encontrou, buscou», disse-se em for­ma de rifão rimado, o que sempre terminava por parecer com alguma verdade. Até que adormeceu com a boca aber­ta, a baba a humedecer-lhe o travesseiro.

Só acordou com o marido a voltar do trabalho e a en­trar pelo quarto adentro. Não quis jantar nem sair de seus cuidados, dormiu de novo: o homem lá que se regalasse com as sobras do almoço.

E já que os filhos estavam na quinta das titias em Jacarepaguá, ela aproveitou para amanhecer esquisita: túrbida e leve na cama, um desses caprichos, sabe-se lá. O marido apareceu-lhe já trajado e ela nem sabia o que o homem fi­zera para o seu pequeno-almoço, e nem olhou-lhe o fato, se estava ou não por escovar, pouco se lhe importava se hoje era dia de ele tratar os negócios na cidade. Mas quando ele se inclinou para beijá-la, sua leveza crepitou como folha se­ca:

— Larga-te daí!

— E o que tens?, pergunta-lhe o homem atónito, a en­saiar imediatamente carinho mais eficaz.

Obstinada, ela não saberia responder, estava tão rasa e princesa que não tinha sequer onde se lhe buscar urna res­posta. Zangou-se:

— Ai que não me maces! Não me venhas a rondar como um galo velho!

Ele pareceu pensar melhor e declarou:

— Ó rapariga, estás doente.

Ela aceitou surpreendida, lisonjeada. Durante o dia in­teiro ficou-se na cama, a ouvir a casa tão silenciosa sem o bulício dos miúdos, sem o homem que hoje comeria seus cozidos pela cidade. Durante o dia inteiro ficou-se à cama. Sua cólera era ténue, ardente. Só se levantava mesmo para ir à casa de banhos, donde voltava nobre, ofendida.

A manhã tornou-se uma longa tarde inflada que se tor­nou noite sem fundo amanhecendo inocente pela casa toda.

Ela, ainda à cama, tranquila, improvisada. Ela amava... Estava previamente a amar o homem que um dia ela ia amar. Quem sabe lá, isso às vezes acontecia, e sem culpas nem danos para nenhum dos dois. Na cama a pensar, a pensar, quase a rir como a uma bisbilhotice. A pensar, a pensar. O quê? Ora, lá ela sabia. Assim deixou-se ficar.

Dum momento para outro, com raiva, estava de pé. Mas nas fraquezas do primeiro instante parecia doída e de­licada no quarto que rodava, que rodava até ela conseguir às apalpadelas deitar-se de novo à cama, surpreendida de que talvez fosse verdade: «Ó mulher, vê lá se me vais mes­mo adoecer!», disse desconfiada. Levou a mão à testa para ver se lhe tinham vindo febres.

Nessa noite, até dormir, fantasticou, fantasticou: por quantos minutos?, até que tombou: adormecidona, a resso­nar com o marido.

Acordou com o dia atrasado, as batatas por descascar, os miúdos que voltariam à tarde das titias, ai que até me faltei ao respeito!, dia de lavar roupa e serzir as peúgas, ai que vagabunda que me saíste!, censurou-se curiosa e satis­feita, ir às compras, não esquecer o peixe, o dia atrasado, a manhã pressurosa de sol.

Mas no sábado à noite foram à tasca da Praça Tiradentes a atenderem ao convite do negociante tão próspero, ela com vestidito novo que se não era cheio d'enfeites era de bom pano superior, desses que lhe iam a durar pela vida afora. No sábado à noite, embriagada na Praça Tiradentes, embriagada mas com o marido ao lado a garanti-la, e ela cerimoniosa diante do outro homem tão mais fino e rico, procurando dar-lhes palestras, pois que ela não era nenhu­ma parola d'aldeia e já vivera em capital. Mas borrachona a mais não poder.

E se seu marido não estava borracho é que não queria faltar ao respeito ao negociante, e, cheio d'empenho e d'humildade, deixava-lhe, ao outro, o cantar de galo. O que as­sentava bem para a ocasião fina, mas lhe punha, a ela, uma dessas vontades de rir!, um desses desprezos!, olhava o ma­rido metido no fato novo e achava-lhe uma tal piada! Bor­rachona a mais não poder mas sem perder o brio de rapari­ga. E o vinho verde a esvaziar-se-lhe do copo.

E quando estava embriagada, como num ajantarado far­to de domingo, tudo o que pela própria natureza é separado um do outro — cheiro d'azeite dum lado, homem doutro, terrina dum lado, criado de mesa doutro — unia-se esquisi­tamente pela própria natureza, e tudo não passava duma sem-vergonhice só, duma só marotagem.

E se lhe estavam brilhantes e duros os olhos, se seus ges­tos eram etapas difíceis até conseguir enfim atingir o palitei­ro, em verdade por dentro estava-se até lá muito bem, era-se aquela nuvem plena a se transladar sem esforço. Os lábios engrossados e os dentes brancos, e o vinho a inchá-la. E aquela vaidade de estar embriagada a facilitar-lhe um tal desdém por tudo, a torná-la madura e redonda como uma grande vaca.

Naturalmente que ela palestrava. Pois que lhe não falta­vam os assuntos nem as capacidades. Mas as palavras que uma pessoa pronunciava quando estava embriagada era co­mo se estivesse prenhe — palavras apenas na boca, que pouco tinham a ver com o centro secreto que era como uma gravidez. Ai que esquisita estava. No sábado à noite a alma diária perdida, e que bom perdê-la, e como lembrança dos outros dias apenas as mãos pequenas tão maltratadas — e ela agora com os cotovelos sobre a toalha de xadrez verme­lho e branco da mesa como sobre uma mesa de jogo, pro­fundamente lançada numa vida baixa e revolucionante. E esta gargalhada? Essa gargalhada que lhe estava a sair misteriosamente duma garganta cheia e branca, em resposta à finura do negociante, gargalhada vinda da profundeza da­quele sono, e da profundeza daquela segurança de quem tem um corpo. Sua carne alva estava doce como a de uma lagosta, as pernas duma lagosta viva e a se mexer devagar no ar. E aquela vontade de se sentir mal para aprofundar a doçura em bem ruim. E aquela maldadezita de quem tem um corpo.

Palestrava, e ouvia com curiosidade o que ela mesma es­tava a responder ao negociante abastado que, em tão boa hora, os convidara e pagava-lhes o pasto. Ouvia intrigada e deslumbrada o que ela mesma estava a responder: o que dissesse nesse estado valeria para o futuro em augúrio — já agora ela não era lagosta, era um duro signo: escorpião. Pois que nascera em Novembro.

Um holofote enquanto se dorme que percorre a madru­gada — tal era a sua embriaguez errando lenta pelas altu­ras.

Ao mesmo tempo, que sensibilidade!, mas que sensibili­dade!, quando olhava o quadro tão bem pintado do restau­rante ficava logo com sensibilidade artística. Ninguém lhe tiraria cá das ideias que nascera mesmo para outras coisas. Ela sempre fora pelas obras d'arte.

Mas que sensibilidade!, agora não apenas por causa do quadro de uvas e peras e peixe morto brilhando nas esca­mas. Sua sensibilidade incomodava sem ser dolorosa, como uma unha quebrada. E se quisesse podia permitir-se o luxo de se tornar ainda mais sensível, ainda podia ir mais adian­te: porque era protegida por uma situação, protegida como toda a gente que atingiu uma posição na vida. Como uma pessoa a quem lhe impedem de ter a sua desgraça. Ai que infeliz que sou, minha mãe. Se quisesse podia deitar ainda mais vinho no copo e, protegida pela posição que alcançara na vida, emborrachar-se ainda mais, contanto que não per­desse o brio. E assim, mais emborrachada ainda, percorria os olhos pelo restaurante, e que desprezo pelas pessoas se­cas do restaurante, nenhum homem que fosse homem a va­ler, que fosse triste mesmo. Que desprezo pelas pessoas se­cas do restaurante, enquanto ela estava grossa e pesada, ge­nerosa a mais não poder. E tudo no restaurante tão distante um do outro como se jamais um pudesse falar com o outro. Cada um por si, e lá Deus por toda a gente.

Seus olhos de novo fitaram aquela rapariga que, já d'entrada, lhe fizera subir a mostarda ao nariz. Logo d'entrada percebera-a sentada a uma mesa com seu homem, to­da cheia dos chapéus e d'ornatos, loira como um escudo falso, toda santarrona e fina — que rico chapéu que ti­nha! —, vai ver que nem casada era, e a ostentar aquele ar de santa. E com seu rico chapéu bem-posto. Pois que bem lhe aproveitasse a beatice!, e que se não lhe entornasse a fi­dalguia na sopa! As mais santazitas era as que mais cheias estavam de patifaria. E o criado de mesa, o grande parvo, a servi-la cheio das atenções, o finório: e o homem amarelo que a acompanhava a fazer vistas grossas. E a santarrona toda vaidosa de seu chapéu, toda modesta de sua cinturita fina, vai ver que não era capaz de parir-lhe, ao seu homem, um filho. Ai que não tinha nada a ver com isso, a bem di­zer: mas já d'entrada crescera-lhe a vontade d'ir e d'encher-lhe, à cara de santa loira da rapariga, uns bons sopapos, a fidalguia de chapéu. Que nem roliça era, era chata de peito. E vai ver que, com todos os seus chapéus, não passava du­ma vendeira d'hortaliça a se fazer passar por grande dama.

Oh, como estava humilhada por ter vindo à tasca sem chapéu, a cabeça agora parecia-lhe nua. E a outra com seus ares de senhora, a fingir de delicada. Bem sei o que te falta, fidalguita, e ao teu homem amarelo! E se pensas que t'invejo e ao teu peito chato, fica a saber que me ralo, que bem me ralo de teus chapéus. A patifas sem brio como tu, a se fazerem de rogadas, eu lhas encho de sopapos.

Na sua sagrada cólera, estendeu com dificuldade a mão e tomou um palito.

Mas finalmente a dificuldade de chegar em casa desapa­receu: remexia-se agora dentro da realidade familiar de seu quarto, agora sentada no bordo de sua cama com a chinela a se balançar no pé.

E, como entrefechara os olhos toldados, tudo ficou de carne, o pé da cama de carne, a janela de carne, na cadeira o fato de carne que o marido jogara, e tudo quase doía. E ela cada vez maior, vacilante, túmida, gigantesca. Se con­seguisse chegar mais perto de si mesma, ver-se-ia inda maior. Cada braço seu poderia ser percorrido por uma pes­soa, na ignorância de que se tratava de um braço, e em ca­da olho podia-se-lhe mergulhar dentro e nadar sem saber que era um olho. E ao redor tudo a doer um pouco. As coi­sas feitas de carne com nevralgia. Fora o friozito que a to­mara ao sair da casa de pasto.

Estava sentada à cama, conformada, céptica.

E isso ainda não era nada, só Deus sabia: ela sabia mui­to bem que isso inda não era nada. Que nesse momento lhe estavam a acontecer cousas que só mais tarde iriam a doer mesmo e a valer: quando ela voltasse ao seu tamanho co­mum, o corpo anestesiado estaria a acordar latejando e ela iria a pagar pelas comilanças e vinhos.

Então, já que isso terminaria mesmo por acontecer, tan­to se me faz abrir agora mesmo os olhos, o que fez, e tudo ficou menor e mais nítido, embora sem nenhuma dor. Tu­do, no fundo, estava igual, só que menor e familiar. Estava sentada bem tesa na sua cama, o estômago tão cheio, ab­sorta, resignada, com a delicadeza de quem espera sentado que outro acorde. "Empanturraste e eu que pague o pato", disse-se melancólica, a olhar os deditos brancos do pé. Olhava ao redor, paciente, obediente. Ai, palavras, pala­vras, objectos do quarto alinhados em ordem de palavras a formarem aquelas frases turvas e maçantes que quem souber ler lerá. Aborrecimento, aborrecimento, ai que chatura. Que maçada. Enfim, ai de mim, seja lá o que Deus bem quiser. Que é que se havia de fazer. Ai, é uma tal coisa que se me dá que nem bem sei dizer. Enfim, seja lá bem o que Deus quiser. E dizer que se divertira tanto esta noite!, e di­zer que fora tão bom, e a gosto seu o restaurante, ela senta­da fina à mesa. Mesa!, gritou-lhe o mundo. Mas ela nem sequer a responder-lhe, a alçar os ombros com um muxoxo amuado, importunada, que não me venhas a maçar com ca­rinhos; desiludida, resignada, empanturrada, casada, con­tente, a vaga náusea.

Foi nesse instante que ficou surda: faltou-lhe um senti­do. Enviou à orelha uma tapona de mão espalmada, o que só fez entornar mais o caldo: pois encheu-se-lhe o ouvido de um rumor de elevador, a vida de repente sonora e au­mentada nos menores movimentos. Das duas, uma: estava surda ou ouvir de mais — reagiu a essa nova solicitação com uma sensação maliciosa e incómoda, com um suspiro de saciedade conformada. Prós raios que os partam, disse suave, aniquilada.

"E quando no restaurante...", lembrou-se de repente. Quando estivera no restaurante o protector do marido en­costara ao seu pé um pé em baixo da mesa, e por cima da mesa a cara dele. Porque calhara ou de propósito? O mafarrico. Uma pessoa, a falar verdade, que era lá bem inte­ressante. Alçou os ombros.

E quando no seu decote redondo em plena Praça Tiradentes!, pensou ela abanar a cabeça incrédula — a mosca se lhe pousara na pele nua? Ai que malícia.

Havia certas cousas boas porque era quase nauseantes: o ruído como de elevador no sangue, enquanto o homem ron­cava ao lado, os filhos gorditos empilhados no outro quarto a dormirem, os desgraçadinhos. Ai que cousa que se me dá!, pensou desesperada. Teria comido de mais?, ai que cousa que se me dá, minha santa mãe!

Era a tristeza.

Os dedos do pé a brincarem com a chinela. O chão lá não muito limpo. Que relaxada e preguiçosa que me saíste. Amanhã não, porque não estaria lá muito bem das pernas. Mas depois de amanhã aquela sua casa havia de ver: dar-lhe-ia um esfregaço com água e sabão que se lhe arranca­riam as sujidades todas!, a casa havia de ver!, ameaçou ela colérica. Ai que se sentia tão bem, tão áspera, como se ain­da estivesse a ter leite nas mamas, tão forte. Quando o ami­go do marido a viu tão bonita e gorda ficou logo com res­peito por ela. E quando ela ficava a se envergonhar não sa­bia onde havia de fitar os olhos. Ai que tristeza. Que é que se há de fazer. Sentada no bordo da cama, a pestanejar re­signada. Que bem que se via a Lua nessas noites de Verão. Inclinou-se um pouquito, desinteressada, resignada. A Lua. Que bem que se via. A Lua alta e amarela a deslizar pelo céu, a coitadita. A deslizar, a deslizar... Alta, alta. A Lua. Então a grosseria explodiu-lhe em súbito amor; cadela, dis­se a rir.


Clarice Lispector, In Laços de Família